VICTOR PRADERA (nieto)


DAS "COLAS" À MOCHILA: UMA QUESTÃO DE TEMPO

Almocei quarta-feira, 7-12, com meus bons amigos os desembargadores GETÚLIO *** e AROLDO ***, e revi outros de meus grandes amigos (entre eles o Z-ORESTES ***, a quem vou dedicar umas palavrinhas no “blog” um dia desses). O que interessa resgatar da conversa foi insinuar-me e esclarecer-me aquilo que, a esta altura, me faz apressar o preparo da “mochila universitária”. Não digo que a ultime por estes dias ou nas próximas semanas (se é que a Universidade não seja a que me desconvoque), mas estou mesmo cada vez mais próximo de, por decisão pessoal, retirar-me da graduação depois de 32 anos de magistério.

Já fiquei velho, esta é a verdade. Minhas lástimas, porém, não são provocadas pela óbvia ancianidade que me pesa, nem por uma suscetibilidade do tipo daquela que nutria as (antigas) mocinhas dos (antigos) colégios internos das (antigas) freiras (então) católicas.

Quando, porém, sob minhas barbas já embranquecidas, alguns alunos, sem sequer valer-se da falsa prudência (“prudentia carnis”) da dissimulação, tentam (e acho que vários conseguem) fraudar as provas, isso é um sinal reluzente de que lhes sou dispensável. Já não se trata só de alguns poucos episódios da prática peçonhenta dessa fraude acadêmica (não sou utópico, sei que o mal é inextirpável da cidade dos homens); o de que se trata é de uma “normalidade institucional” da versada fraude, de sua adoção quase “civilizada”, como se fosse a mais trivial e justificável das condutas. Alguns chegaram a dizer-me que é jocoso ver nisso uma espécie de “caça gato-rato”, com a tentativa ora mais, ora menos exitosa, de superar a fiscalização do “professor”. (Perdão, mas sem diminuir as relevantes funções dos bedéis, “professor” não é fiscal. Eu não me sinto à vontade numa atividade de guardião, de sentinela da lealdade alheia. E exatamente porque, quando a vejo frustrada, o que verifico desaparecer é o vínculo de recíproca fidelidade).

Menos ainda eu serei um burocrata de turno quando se trata de “meus alunos”, isso não. Ou eu neles posso confiar, ou falhei miseravelmente no magistério. Volto a esse ponto adiante.

Já tive meus tempos de menino e adolescente (parece meio difícil acreditar nisso quando me vejo, por sorte sempre rapidamente, em algum impiedoso espelho, mas é verdade que já tive meus 10 e meus 18 anos). Terei, eu o antigo aluno, fraudado algumas provas: lembra-me de, eu tinha 12 ou 13 anos, emprestar respostas alheias para a prova do Professor Vizziolli e, já adiante, com meus 17, a ultrapassagem, por saberes de terceiro, dos complexos exames impostos pela Dona Amália, esses meus saudosos professores. Mas isso, passado pouco edificante de meus tempos de alunado, isso não me refuta a autoridade de agora reclamar conduta diversa de meus alunos, que já não são meninos nem adolescentes, e para mais são “meus alunos” (este é o ponto!), a quem, como todos sabem, convidei para a construção exuperiana de uma torre.

Vivemos nestes tempos a reclamar da corrupção. Mas, parece, que, para alguns, “corrupção nos próprios olhos é colírio” (i.e., quando é em proveito próprio, a corrupção é uma pequena aventura, quando muito um pecadozinho venial).

O que me incomoda é concluir que, se eu não obtenho modelar os costumes de minha audiência, revela-se vã minha presença acadêmica. De fato, não se há mesmo de esperar que alguém melhor aprenda de minhas aulas do que da leitura e meditação, com muitíssimo maior proveito, diretamente nas fontes em que me abebero.

Como penso que todos saibam, sempre tive resistência em usar o garfo e a faca. Foi só a custo que meus pais me convenceram das vantagens desse uso. Sou um camponês, destes que metem os pés aos pratos. Se tenho um mérito no conjunto de minhas misérias é exatamente o de me não gloriar das asperezas de que sou feito: nesta minha massa de terra que o bom DEUS animou não reconheço nenhum traço do mítico “bon sauvage”.

Assim, quando, alimentados de ânimo fraudatório, alguns alunos não dão a mínima para uma conduta moralmente reta nas provas que aplico, isso só me testifica minha própria inutilidade e miséria. Devia ser-lhes agradecido por essa generosa demonstração. Mas há os outros, há os que perseveraram leais, há também os que, caídos, levantaram-se. E é só à conta desses que vou ficando na vida acadêmica, um tanto e cada vez mais desconcertado com minhas inópias.

Há um tempo certo, o tempo que as coisas requerem (é uma lúcida observação de AFONSO BOTELHO). Vou ficando na Universidade por enquanto mas, para atender aos conselhos de meus amigos, já estou a jogar água benta na mochila universitária... Isso é um sinal de que já guardei a maior parte do que devia nela acomodar. Para meus bons alunos, vou tratar de redigir um testamento. Começarei com uma frase paulina: “diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum”. Mas isso é uma outra história…


Escrito por V-P (nieto) às 11h21
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CARTA 4 de Escrutopo a Orugário

A Carta IV aconselha sobre a oração inócua:

• Escrutopo sugere a Orugário que incline o paciente a aspirar “algo inteiramente espontâneo, interior, informal, e não codificado”,

• de maneira tal que se suscite “um estado de ânimo vagamente devoto, no qual não se possa produzir uma verdadeira concentração da vontade e da inteligência”.

• Sugere Escrutopo que se convença o paciente “de que a posição corporal é irrelevante para rezar”.

• Importa muito, diz o diabo velho, que os pacientes desviem sua mirada de DEUS para si próprios, suscitando sentimentos ou sensações: “ensine-os (diz a Orugário) a medir o valor da cada oração por sua eficácia em provocar o sentimento desejado…” (então, uma oração com o escopo de ser perdoado será eficaz somente se acarretar o sentimento de que se obteve o perdão… ponto e basta).


Escrito por V-P (nieto) às 09h57
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CARTA 3 de Escrutopo a Orugário

Destaco da Carta III:

• “… a mais sútil de características humanas (é) o horror ao óbvio e sua tendência em dele descuidar”

• Escrutopo sugere a Orugário que convença seu paciente a centrar sua atenção na vida interior, de modo que acredite que sua conversão é algo que está dentro dele próprio. Assim, com esses “novos critérios cristãos”, diz Escrutopo, o paciente ficará retido na versão edulcorada de seus próprios estados de ânimo.

(Aí está um dos traços fundamentais do modernismo —síntese de muitíssimos erros: aquilo que, na óptica dos modernistas, faz surgir a Fé nos homens não é o conhecimento de DEUS a partir da realidade mas o sentimento humano, uma percepção sensorial confusa que pouco distingue ou nada entre DEUS e o próprio homem).


Escrito por V-P (nieto) às 09h49
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CARTA 2 de Escrutopo a Orugário

Na segunda carta, Escrutopo começa por lamentar-se de que o paciente do diabo jovem se haja tornado cristão. E segue:

1. “Na atualidade, a mesma Igreja é um de nossos grandes aliados. Não me interprete mal: não me refiro à Igreja de raízes eternas...”, porque essa Igreja, diz Escrutopo, é “um espetáculo completamente invisível para esses humanos”.

2. A alguém que se sinta imprudentemente inclinado a suspeitar que Escrutopo esteja então a referir-se à Igreja militante posterior ao Concílio Vaticano 2 e à chamada “missa nova”, quero observar que as “Cartas...” de LEWIS foram publicadas, pela vez primeira, mais de 20 anos antes desse concílio e 30 antes da “nova missa”.

3. O que Escrutopo tem em vista é a imperfeição humana, que leva alguns a desafinar na entoação de cantos religiosos ou a trajar-se, nas cerimônias religiosas, de modo infeliz ou extravagante, o que facilmente se converterá em ocasião para que o paciente de Orugário percepcione algo suscetível de ridículo em sua religião. Em resumo, se os pecados (é no plural que sempre se disse isso) acarretarem meditação, a batalha estará meio perdida para Orugário.

4. Aconselha Escrutopo que Orugário busque evitar que seu paciente se pergunte como deveriam apresentar-se os cristãos: mantenha o paciente em “suas idéias vagas e confusas, e terá toda a eternidade para divertir-se, provocando nele essa peculiar espécie de lucidez que proporciona o Inferno” (: SENHORES ALUNOS, atenção, não se se esqueçam de que a carta aqui resumida foi supostamente escrita por um diabo, Escrutopo, para outro, Orugário…).

5. Trate Orugário de evitar que seu paciente se pergunte como segue:

“Se eu, sendo como sou, posso considerar-me um cristão, ¿por que os diferentes vícios das pessoas que ocupam o banco vizinho haveriam de provar que sua religião é pura hipocrisia e puro formalismo?”.


Escrito por V-P (nieto) às 19h45
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CARTA I de Escrutopo a Orugário


(Recomendo que não se leia esta mensagem antes da prévia consideração da postagem anterior, com o título "Preparação para as 'Crônicas de Nárnia'").

1. Aconselha Escrutopo que o diabo novo não seja ingênuo. Pede que ele não se valha de raciocínios. E diz:

"Se você tivesse vivido faz uns (poucos) séculos, é possível que sim: naquela época os homens ainda sabiam bastante bem quando estava provada uma coisa e quando não o estava; uma vez demonstrada, nela criam de verdade; ainda uniam o pensamento à ação, e estavam dispostos a mudar seu modo de vida como conseqüência de uma cadeia de raciocínios".

2. Prossegue Escrutopo:

"Mas agora, com as revistas semanais e outras armas semelhantes, mudamos muito tudo isso. Teu homem se acostumou, desde que era jovem, a ter dentro de sua cabeça, bailando juntas, uma dúzia de filosofias incompatíveis. Agora não pensa, antes de tudo, se as doutrinas são 'certas' ou 'falsas', mas se são 'acadêmicas' ou 'práticas', 'superadas' ou 'atuais'...".

3. Adiante, Escrutopo alude ao "funesto costume de ocupar-se de questões gerais", e sugere a Orugário que leve seu paciente a reter-se no "fluxo de suas experiências sensoriais imediatas", fazendo-as chamar de "vida real", com o cuidado de que não se pergunte sobre o que entende por "real".

4. Ao fim da carta, o velho diabo diz que a Orugário o melhor é não deixar seu paciente ler livros científicos, mas dar a ele a sensação de que sabe tudo e que o "pescado" em conversações ou leituras é "o resultado das últimas investigações".

5. Lembre-se, remata a primeira carta de Escrutopo a Orugário, que este último tem a missão de embaralhar (e não de ensinar) o paciente.




Escrito por V-P (nieto) às 10h22
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Preparação para as "Crônicas de Nárnia"

Admito que me surpreendi, de certa maneira, ao saber da versão cinematográfica das “Crônicas de Nárnia”.

Não quero minimamente relatar os motivos de minha surpresa. Mas julgo convir uma aproximação ao pensamento de C.S.LEWIS —o autor das “Crônicas...”—, até para propiciar um adequado reconhecimento da obra originária sob a interpretação da Walt Disney Company.

Penso que, não acaso literariamente, mas no plano doutrinal, o decisivo de C.S.LEWIS são “The Screwtape Letters”, obra publicada pela primeira vez em 1941 no “Manchester Guardian”. Trata-se nessa obra, como se lê em seu título na edição brasileira, de “Cartas do Diabo a seu Aprendiz” (em Espanha, preferiu-se “Cartas del diablo a su sobrino”).

São 31 cartas escritas por Escrutopo (um diabo velho e aposentado) a Orugário (um diabo de primeira missão). Extrairei dessas cartas e postarei no “blog”, dia a dia, algumas passagens para a reflexão dos alunos.


Escrito por V-P (nieto) às 10h09
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