VICTOR PRADERA (nieto)


RESPOSTA DO RD


CARTA ENVIADA POR RD:

“Prezado amigo V-P:

Acuso o recebimento de cópia da carta datada de 24-11-2005 e que lhe foi remetida por nosso amigo comum, o conspícuo Engenheiro P*** K***, a quem rendo homenagens e tributo a mais franca das estimas cristãs.

Nada obstante restrinja agora o que chama de ‘posição neutra’ às só questões de ‘política PARTIDÁRIA’, o ilustre Engenheiro K*** reforça meu juízo de que sua respeitável orientação sofre influência do relativismo e, indo além de distinguir as "duas bandeiras", separa erroneamente a ordem temporal da ordem espiritual.

Destaco, a propósito, de sua elegante carta: 'É prerrogativa de cada cidadão aderir (ou não) a alguma facção partidária, segundo sua consciência, através do exercício do Livre Arbítrio'.

É verdade que o Engenheiro K*** alude a uma certa superioridade de critérios morais. Todavia em que consistirá, de fato, essa superioridade se nosso polemista sustenta a admissibilidade de uma 'posição neutra' em política (partidária, que a limite), ou seja, aponta uma 'zona neutra' em que a ação humana, submetida ao só influxo da consciência, sem o concurso das normas objetivas, poderia 'livremente', 'conscientemente', escapulir dos princípios.

Isso, parece, ‘justifica’ o fato histórico de empresários supostamente cristãos terem financiado revoluções marxistas. Ou ainda a notícia (que nunca pude confirmar) de alguns proclamados cristãos terem ido apanhar suas mochilas do lado de lá dos Pirineus, exatamente quando os republicanos, na Espanha, andavam a estuprar freiras e a jogar futebol com cabeças de padres.

Sumariemos as coisas: para esse gênero de dicotomia relativista, o “bom” cristão 1. aos domingos, vai à Missa, lá comunga; 2. todo o dia, reza o terço e, sobremodo, não trai a mulher; 3. dá esmolas quando pode; 4. tem ao menos três filhos, salvo se pronunciar voto de guardar a castidade; 5. ao caminhar, lê sempre o livro tal; 6. em Política, faz o que sua consciência sugere… ela é a norma suprema nessa matéria… nisso não se meta ninguém, é matéria de liberdade de consciência; 6. se acaso pertence aos quadros de um partido comunista, há de ser um comunista a agir de acordo com sua consciência… nisso não se meta ninguém… é matéria de liberdade intangível… mas, depois da comunhão, dez minutos mais cinco de meditação; 7. se seu partido político defende o aborto ou o invertismo, sabe o 'bonzinho' que essas teses não parecem harmonizar-se com a doutrina cristã… mas, como em política não há dogmas (disse-o, parece, um santo), não é caso de afastar-se do tal partido… nisso não se meta ninguém, que o 'bon sauvage' (rectius, o 'bon chrétien') está a seguir sua plenária liberdade de consciência… afinal, a zona é neutra.

Eu receio nisso vislumbrar a liberdade de perdição.

Aceite o abraço do

RD”.


Escrito por V-P (nieto) às 11h48
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"DESLIGUE O CEGUETO..."

Recebi ontem, 27-12, um comentário extra-informático sobre duas postagens deste “blog”: “Diálogo Interpelante” e “Não sou nacionalista. Sou patriota” (ver abaixo).

O comentário é da lavra de meu considerado amigo o engenheiro P*** K*** e reaviva polêmica que teve início em interessante diálogo travado com nosso também amigo RD (cfr. "infra": “Diálogo Interpelante”).

Nesta postagem apenas versarei, de modo conciso, a polemização do engenheiro P*** K*** sobre minha nota “Não sou nacionalista. Sou patriota”. A crítica sobre a outra postagem, remeti-a ao RD para que, se o quiser, responda como achar.

Aviso que, nessa minha resposta, em nada, no mínimo que seja, quero violar a caridade e malgastar um iota da estima e da reverência ao engenheiro P*** K***.

Em resumo, a continuidade na polêmica supõe à raiz duas coisas: (a) o amor primeiro à Verdade; (b) o integral respeito ao ilustre contricante.

* * * * *

Escreve o Dr. P*** K*** que a argumentação desfiada no “blog”, a propósito do tema em foco, “é perfeita segundo as definições de ‘nacionalismo’ e ‘patriotismo’”. E prossegue:

“Acontece que outras definições podem ser dadas aos mesmos termos e, neste caso, as conclusões da argumentação (…) podem deixar de ser válidas. O que interessa, na verdade, é analisar a essência das idéias, sem estar condicionado a denominações”.

* * * * *

Não é legítimo, numa polêmica, acenar a só possíveis analogias e equivocidades usuais dos termos, ou ainda a um particular emprego impróprio dos conceitos verbais, se não se afirma —seguido de pronta demonstração— que um dos dialogantes veiculou os termos com algum vário significado pontual.

São exemplos sabidos de escola: “Menino, a manga sujou-lhe a manga”; “O macaco não sabe usar o macaco”; “A namorada pôs o cravo sobre o cravo e, como deste aquele caísse, firmou-o com um cravo”. Convivemos, porque somos humanos e não anjos, com termos análogos e equívocos. Não é humanamente possível um angelismo que dispense desprover a comunicação social de um reclamado envoltório dos termos verbais.

Bem por isso, ou a linguagem num diálogo é própria e unissignificativa, ou o diálogo não é sequer possível.

Se minha linguagem, alguma vez, avançar termos com sentido propositadamente análogo, equívoco ou impróprio, estou, quando isto seja necessário para evitar o erro, moralmente obrigado a advertir meu interlocutor de que emprego significações particulares, com tal ou qual acepção analógica, num ou noutro sentido equívoco etc.

Não é nada justo, por certo, que, tempos depois de reduzidos os argumentos de um debate, venha um dos dialogantes dizer que procurará, de futuro, significados que possam dar-lhe alguma eventual razão retrooperante e, por agora, reservar-se a cômoda posição de, adversado, refugiar-se na unilateral suspensão do juízo.

Na espécie isso se enseja, porque empreguei os termos “nacionalismo” e “patriotismo” em sentido próprio e conforme não só ao consenso dos teóricos e historiadores da Política mas, o que é de relevo, concertado pontualmente às lições de Cathrein e ao uso magisterial de Pio XI (cfr., p.ex., “Divini illius magistri”, n. 25; “Quadragesimo anno”, n. 40; “Caritate Christi”, n. 4; Rádio-mensagem de Natal de 1954).

* * * * *

O pior de tudo é que, já o disseram outros antes de mim, não haverá balela alguma que não tenha sido (ou venha a ser) dita por meia dúzia de teólogos, difundida pela internet e levada às telas dos cinemas.

Por isso, muito possivelmente, o engenheiro P*** K*** acabará por descobrir algum colecionador de selos ou de borboletas, habitante das cercanias da floresta de Raikkola, a sustentar que o termo “nacionalismo” —tal como o usamos Pio XI, antes dele Cathrein, depois dele os politólogos e eu por fim— se aplicaria melhor a “patriotismo”. Ao passo que, prosseguirá o carélio vizinho do Ladoga, o termo “patriotismo” melhor se empregará para o que Pio XI e antes dele Cathrein etc. chamam “nacionalismo”. Vale dizer, invertem-se os conceitos.

* * * * *

Se a moda pega (e ela em algumas partes pegou, como fez ver, entre outros, o excelente Rafael Gambra num valiosíssimo estudo sobre os mitos da linguagem), imagine-se o tipo de “diálogo” que se poderá manter:

—Ouviu ontem a Kiri?
—Não. Exatamente na hora da audição, os centrípetas do lado direito telefonaram-me e pediram-me ajuda para desentocar umas sórdidas. (Segue a explicação: “Desculpe-me, mas eu uso a expressão ‘centrípetas do lado direito’ para aludir aos ‘meu vizinhos da direita’ —é que eles são muito 'mureiros', compreende, não?, vivem a pedir coisas pelo muro; e ‘sórdidas’ é o modo com que designo os detritos de canos de esgoto: uma terminologia muito peculiar lá de casa, como se vê").

* * * * *

A sociedade doméstica apresenta muitos casos de linguagem contextual. Mas não tenho a pretensão de impô-los ao diálogo extrafamiliar. Dou-lhes a seguir um exemplo disso.

Minha mulher é excelente motorista (fique isso bem consignado para evitar retaliações; não venha ela impor-me deva eu ficar a dirigir pelas alamedas de A***). Mas que essa adorável mulher tem um idioma, em alguma parte, singularíssimo acerca de automóveis, isso pode ser dito sem receio de erro. A título ilustrativo: (a) “luz baixa”, segundo essa minha querida (também) motorista, é aquilo que alguns condutores triviais chamam de “lanterna”; (b) “luz alta”, na linguagem de minha estimadíssima, é o que os mortais comuns designam por “luz baixa”; (c) ora, faria falta saber como é que minha mulher denomina a “luz alta”; pois é: ela usa um vocábulo de criação personalíssima, que só ela e eu entendemos: “luz alta”, para nós, é “cegueto” ("Desligue o cegueto, seu miserável!", esbraveja de vez em quando nossa admirável condutora!).

Outro exemplo: a Bel, que é a mais nova das filhas do RD, é muito loquaz e costuma despejar algumas teses indiscretas nas animadas refeições familiares. RD, por sua vez, tem um veio crítico nem sempre temperado (para não dizer, planamente, que é não rara vez destemperado). Logo passa ele amargamente a impugnar as teses de sua mais pequena. E ela, a Bel, que é de inteligência viva, em muita ocasião se sai com algo do tipo: “Perdão, é que usei os termos com sentido oposto ao que o Papai adotou”. Ponto e basta: ela põe-se (ou parece pôr-se) externamente de acordo com a essência dos juízos do RD, sem mudar uma vírgula da expressão anterior. Está essa esperta miúda a salvo da polêmica: "noblesse oblige".

Em síntese, com esse gênero de novilíngua, o sim é não; o pão, queijo; o queijo, pão.

Vitoriou-se a Bel, digo: a babel.


Escrito por V-P (nieto) às 10h41
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