VICTOR PRADERA (nieto)


O amor (4)


Já se assentaram, em postagens anteriores, dois principais registros sobre nosso tema:

1- o amor ao próximo tem por modelo o reto amor de si próprio, retidão calcada, assim o explicitaram, com razão, dois comentaristas do "blog", no amor de DEUS;

2- sempre há no amor, ato principal da virtude da caridade, o desejo ou ato de fazer o bem ao ente amado (Aristóteles, "Retórica", Bkk. 1.380 b 27).

* * * * *
Incursionemos agora por umas tantas distinções: pode ocorrer que o amor se encontre em ato no apetite sensitivo, caso em que encontramos o "amor-paixão" (: "amore qui est passio"), de que se disse constituir um hábito com força impulsiva; o "amor-paixão" não nasce repentinamente, senão que da persistente consideração do ente amado (: "assiduam inspectionem rei amatae", como o disse S.Tomás).

Também pode encontrar-se o amor residente no apetite intelectivo, amor afetivo que implica a união afetuosa entre o amante e o ente amado, de maneira tal que o amante julgue o amado sua pertença ou unido com seu ser.

Por fim, nessa divisão, pode referir-se o "amor de benevolência", que é o ato pelo qual se quer um bem para outrem, mas ao modo de um princípio do amor.

Vale por dizer, o amor de benevolência é apenas o começo de um possível amor-paixão ou de um amor afetivo.

Tomemos um exemplo escolar: quando nos pomos a ver um jogo de futebol entre equipes que mal conhecemos, inclinamo-nos acaso a torcer para um dos times; há aí benevolência, desejo de que esse time vença; mas, por falta de hábito, não há ainda amor-paixão, e por falta de união afetuosa em ato, não há amor afetivo.

Em outras palavras, o amor em ato, seja que radique no apetite sensitivo, seja que resida no intelectivo, sempre supõe o amor de benevolência, que é, pois, somente o princípio do amor.

* * * * *

Na próxima postagem, tentaremos breve incursão no tema do "amor a nós próprios".

Escrito por V-P (nieto) às 09h39
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O amor (3): mais amizade há...

O amor é dileção (“dilectio”) —preferência ou escolha do ente a que se inclina: é o ato principal da caridade.

Avulta a circunstância de que a caridade se inclina, por essência, a seu próprio ato, e a vontade —em que reside a caridade— volta-se a seu objeto (: o ente querido) e, como diz ROMANO AMERIO, de certo modo transfere-se o sujeito ao objeto.

A ação própria e primeira da caridade, pois, é amar, e não ser amado.

S.TOMÁS desfia dois argumentos ilustrativos para provar a asserção de ARISTÓTELES, para quem “mais amizade há em amar do que em ser amado” (“Ética a Nicômaco”, Bkk. 1.159 a 28):

1- Mais louvados são os amigos por amar do que em ser amados; são mesmo vituperados se não amam e são amados.

2- As mães, que são as que mais amam (: “quae maxime amant”), buscam mais amar que ser amadas (“Suma Teológica”, IIa.-IIæ., q. 27, art. 1).

De que segue a confirmação da doutrina aristotélica, para quem “muitos mais querem ser amados que amar; pelo qual fartos são os que amam a adulação” (op.cit., Bkk. 1.159 a 12).


Escrito por V-P (nieto) às 18h46
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O amor (2) -respondeo

Em postagem “privée”, gentil interveniente neste “blog” fez, entre outras, as seguintes considerações:

1. “não vejo culpa no amor de Adão e Eva (desobediência sim, mas culpa não)”


2. “Creio que o amor não traz consigo nenhuma culpa (e não estou falando aqui do amor sublime). A culpa ocorre quando prejudicamos um inocente, quando ofendemos o outro; e no caso de Adão e Eva, os únicos prejudicados foram eles mesmos ( visto terem sido expulsos do ‘Paraíso’)”.

* * * * *

“Amicus Plato” —aceitemos isto, como é corrente, de uma referência aproximada de Aristóteles—, “amicus Plato sed magis amica veritas”.



("Platão e Aristóteles" -de RAFAEL)

Até mesmo, se se quiser, para reciprocar a leal amizade de quem postou o comentário em pauta —pessoa por quem tenho a mais respeitosa das estimas e grande consideração intelectual—, não devo silenciar: “fraterna correctio actus caritatis est”.

Não ficam os amigos porfiados quando dialogam em busca da Verdade.

* * * * *

Para logo, não houve uma só frase no “blog” que sugerisse a comentada “culpa” no “amor” de Adão e Eva. A culpa original, sabidamente, foi a de comer o fruto proibido. Que se queira discutir se o fruto era um figo ou era maçã, vá lá, mas tomar a passagem bíblica, sem mais, alegoricamente, como questão sexual (ou alvitro isso temerariamente?), exigiria de tão agudo imaginário, ao menos (isto o fez a VALTORTA, p.ex.), relatar em que consistiria de fato a tal desobediência, já que não se aceitou a narrativa da mera mordida no talo do figo ou na casca da maçã.

Por outro lado, será que pensa mesmo tão gentil comentarista que desobedecer a DEUS não entranha culpa alguma?

* * * * *
Dizer que a culpa só ocorre quando prejudicamos um inocente é, de pronto, limitar toda a culpa ao plano de uma necessária alteridade, restrinta à Ética social (para não dizer, ao Direito), inibindo, assim, a esfera clássica da moral pessoal ou monástica.

Além disso, no pecado de Adão e Eva houve ofensa, sim: a DEUS, que, por definição, é inocente de toda a culpa.

Não é tampouco verdade que os únicos castigados com a desobediência de Adão e Eva foram os próprios agentes do ilícito. Para admitir essa afirmação, ter-se-ia de negar a herança do pecado original, transmitido por descendência aos demais homens.

* * * * *

De toda a sorte, era só o que faltava julgar que DEUS puniu o amor e foi injusto com Adão e Eva. Para chegar a tal remate, ter-se-ia de supor que DEUS já não é um Ser Perfeito, que já DEUS “caritas non est”!


Escrito por V-P (nieto) às 16h14
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O amor (1)

Postou-se um comentário (v. abaixo "Aborto e amor ao próximo") sugerindo que se verse neste "blog" sobre o "amor".

Julgo que se trate de tema oportuno, em que pesem a duas coisas: primeira, à trivialidade com que, nominalmente, ele se entoe "ad nauseam" pela média; segunda, ao conselho de PIEPER, convencido de sua inconveniência logo após uma passagem de olhos por uma revista ilustrada.

Calha que ROMANO AMERIO, nas imperdíveis páginas do "Iota Unum", assentara já que, em nossos tempos, tanto mais, parece, um conceito invade o mundo das palavras, tanto mais, em verdade, ele escasseia no mundo das coisas. E se a isso fosse necessário acrescentar algum indicativo para admitir-se nosso tema, há hoje um motivo particular em reconhecê-lo: o Papa reinante fez publicar, justamente hoje, hoje mesmo, sua primeira encíclica, com o título "Deus caritas est", discorrendo sobre a questão do "amor".


(Afrodite de Frejus Callimac -http://www.xtec.es/~jcanadil/activitats/proporcionalitat_geometrica.htm)

Se me permitem, há algo mais: C.S.LEWIS, o notável autor das "Crônicas de Nárnia", disse alhures que há uma "lei" da vida humana decaída que se resume na perversa inclinação dos homens em substituir o sentido das palavras eticamente famosas e substituí-lo exatamente por seu oposto.

A isso, ainda que brevemente, dedicarei algumas linhas de meditação. indagando logo dos meus estimados alunos-leitores (parece que, de momento, nos reduzimos a três ou quatro): em que há mais amizade, em amar ou em ser amado?

Pergunto-lhes ainda: o que ama a adulação quer mais amar ou ser amado?

Escrito por V-P (nieto) às 19h16
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Ainda Adão e Eva


("Expulsão do Jardim do Eden", de FRA ANGELICO -Museu do Prado, Madrid)

Dois apenas, dois corajosos comentários até aqui, dois só (quando eu esperava dezenas deles), dois valiosos comentários, ambos a entender que maior foi o pecado de Eva que o de Adão.

* * *

Sem com isto pretender por agora imiscuir-me nas opiniões que, a propósito da questão em pauta, ainda talvez se agreguem, queria copiar aqui um excerto da "Nova Floresta", em que MANUEL BERNARDES refere-se, "obiter dictum", ao pecado original. Critica o grande escritor o vício de "derivar a falta própria da de seu mestre e sócio, e alegá-lo por cúmplice e exemplar". E prossegue:

"Assim fez nosso pai Adão quando, perguntado por que comera contra o preceito, meteu consigo a Eva e ao mesmo Deus: a Eva, que lhe deu o pomo, e a Deus que lhe dera a Eva. De sorte que ao argumento do Senhor: "Ex ligno de que praceperam tibi ne comederes, comedisti" ["Comeste da árvore de que eu te tinha ordenado que não comesses" -Gên. 3,11) -quis dar um pronto "retorqueo": "Mulier, quam dedisti mihi sociam, dedit mihi" ["A mulher, que tu me deste por companheira, deu-me o fruto"] (Título I, n. VII).






Escrito por V-P (nieto) às 15h38
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Insto: Adão ou Eva?



("Expulsão do Paraíso", de HAYTON: c. 1235 -c.1314).




Escrito por V-P (nieto) às 12h20
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Adão ou Eva?





("O Jardim das Delícias", do pintor holandês HIERONYMUS BOSCH (1450-1516) -Museu do Prado, Madrid).



A pena corresponde à culpa: "poena respondet culpa", mais ainda quando aquela se inflige por Deus, que tudo bem faz "in numero, pondero et mensura". Quem mais culpado? Quem mais punido? Adão ou Eva? (Gênesis, 3, 16 et sqq.).

Aguardo sugestões.


("Expulsão de Adão e Eva", de GIUSTO DE MENABUOI, 1376)


Escrito por V-P (nieto) às 18h02
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IDE AO BLOG DO V-P


Um pequeno registro sobre o protomaquiavelismo hindu inaugura, propriamente, o Blog do V-P (: http://vpn-mek.blogspot.com/), documentando, ainda que por meio de uma nótula, parte da almejável ampliação das meditações de aula (de Direito Constitucional) sobre o Estado brasileiro.

O sonho paidéico dos "maquiavelismos" de todos os tempos é o de limitar as meditações da ciência ao âmbito estrito das expressões positivas (em nosso caso, ao texto da Constituição). Que seja também o sonho de alguns poucos alunos, compreende-se.

Mas é por menos que os "maquiavelismos" cavam trilhas propiciatórias aos totalitarismos?



Escrito por V-P (nieto) às 10h53
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Um novo "blog"


Noticio aos leitores (sobremodo aos meus alunos) a instituição de um "blog" auxiliar, para a divulgação de textos mais longos, mais diretamente vinculados aos temas de aula (: http://vpn-mek.blogspot.com/).

Veja-se ao lado "O Blog do V-P".





Escrito por V-P (nieto) às 12h42
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