VICTOR PRADERA (nieto)


Um naco de pão, sem tv, por favor




Os que, generosos, tolerantes leitores deste “blog”, os que entre eles há mais tempo me conhecem, esses acaso poderão dar testemunho de que a passagem do meridiano me fez lá seus estragos mas, quanto à massa corporal, não acrescentou muitos quilos à minha costumeiramente desarmoniosa figura. Isso nada obstante o fato de o parvo acréscimo de peso se ter localizado, é bem verdade, na circunscrição (qualifiquemo-la assim, em piedoso eufemismo) estomacal, está bem: circunscrição estomacal.

Vem-me essa referência ao bestunto porque, ainda ontem, 9 de fevereiro, almocei na companhia de uns tantos bons amigos, entre eles, alguns de meus melhores. Isso é um conforto para a miséria da vida. Rever os amigos.

Mas, a despeito desse imenso gosto que me concedo ao menos uma vez por semana —e então reencontro invejáveis lucidezes que, não deambulassem, imaginaria só existentes nas revistas de jurisprudência (o que me lembra estar em falta em examinar, neste “blog”, a relevância penalística atual do Z-ORESTES)—, como eu dizia, sem embargo dessa alegria semanal, outra há, concorrente, que me conforta quase todos os dias.

Refiro-me ao almoço em família.

Posso jurar, sobretudo dirijo-me aos mais novos, que essa realidade existe e não se confunde com engolir nutrição sólida, com a ajuda de goles de não sei quê e um contador eletrônico de calorias, enquanto se sucedem imagens no vórtice do televisor e se ouve o ranger dos âncoras, esse aparente interminável ruído que acompanha, agora de comum, as refeições domésticas.

E dizer que bastava desligar o aparato… Il suffit de détacher! E recobraríamos a liberdade de ouvir e falar, de ouvir nossos mais próximos, de falar-lhes de nossas idéias, de nossos planos, de nossas amarguras, das ilusões e desilusões (e eles das deles), do que nos abate o Estado arrecadador, e formaríamos um hábito, um (hoje, pode dizer-se já) contracostume da conversação às refeições. Não se pensará então nos balanceamentos nutricionais, em quantidades proteicas, lipídicas, lipoprotéicas —enquanto matraca o âncora—, mas na reunião de família em torno de um sucoso pequeno prato de uma comida riquíssima que se descobre, ora bolas!, não importar ao fundo de qual espécie seja. Ah! que sabor tem um simples naco de pão…

Pois que boa notícia agora soube! Essa minha resistente mania de ouvir os próximos, que era só o fruto de uma experiência pessoal em meio à tragédia freqüente de meus transtornos biográficos, agora soube, agora soube que se recomenda de modo (diz-se) científico!

Acabam de noticiar-me o que segue, “litteratim”: “As refeições em família reforçam os vínculos, melhoram a qualidade das comidas, protegem dos excessos de alimentação ou de fitness [exercícios físicos], reforçam a saúde psíquica, favorecem o contacto com a realidade, são formativas quanto às boas maneiras, sendo ótimas para educar crianças e adolescentes. Tais conclusões não são de um saudosista, mas resultado de amplas e sérias pesquisas científicas recentes, sobretudo com adolescentes,
resumidas no livro da jornalista Miriam Weinstein, ‘O surpreendente poder das refeições em família: comer juntos nos torna mais inteligentes, mais fortes, mais saudáveis e mais felizes’. Tudo isso é verdadeiro quando o convívio durante a refeição não é sabotado pela TV ligada, esclarece Weinstein” (fonte: Agência Boa Imprensa –ABIM).

Bem haja!


Escrito por V-P (nieto) às 10h38
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O AMOR (epílogo do resumo)

(Nótula sobre o amor ao próximo).

O preceito do amor ao próximo, embora já radicado nos textos veterotestamentários (p.ex., Lev. 19-9, Prov. 3, 27-8, Ecli. 28,2), constitui, expressamente, um “novo” mandamento no cristianismo: v.g., S.João 13, 34-5; 15,12; 15,17; S.Mateus 5,7; 5,9, 5,21-24; 12, 28-34; 22,34-40; S.Lucas, 6,27-38).

Essa “novidade” resulta da saliência do motivo e do modo do amor cristão ao próximo.

O motivo é o de o objeto amorável ser “próximo”, i.e., ser tão “imago Dei” como o sujeito amante, ambos com capacidade para o serviço e a glória de Deus.

O modo é exatamente o modelo do “amor de si próprio” (: havemos de amar ao próximo da maneira mesma como amamos a nós próprios).

Vale por dizer, amar ao próximo por Deus (: fim), amar ao próximo no bem (: regra) e amar ao próximo enquanto a ele se deseja o bem tal como o desejamos para nós próprios (: motivo).

* * * * *

Por todo o exposto, claro é que o amor se ordena segundo uma hierarquia de bens amoráveis e distintos graus de necessidade do próximo.

* * * * *

Há bens sobrenaturais e bens naturais. S.Tomás assentou, com seu costumeiro e admirabilíssimo senso comum, que o bem sobrenatural de uma só pessoa vale mais do que o bem natural de todo o universo.

* * * * *

O reto amor ao próximo não busca os interesses do que ama, compraz-se na verdade e traduz-se em ações.

* * * * *

Aos mais próximos, devemos, de comum, mais amor do que aos próximos mais distantes.

* * * * *

Na imensa variedade de atos de amor ao próximo, destacam-se as 14 obras classicamente designadas por de misericórdia —sete corporais, sete espirituais.

As primeiras sete socorrem as deficiências do corpo e consistem em auxílios em vida e em morte (: enterrar). As que ajudam em vida, socorrem internamente, na fome (: dar de comer) e na sede (: dar de beber), e externamente, dando de vestir e dando pousada, auxilia na enfermidade (: com a visita) e no cativeiro (: a redenção).

As sete espirituais tratam de prover nas deficiências dessa ordem: por defeito do entendimento humano, já especulativo (: ensinar ao que não sabe), já prático (: dar bom conselho ao que dele necessita), por defeito da vontade (: consolar na tristeza) e por defeito de obra, do pecador (: corrigindo-o), do ofendido (: perdoando as ofensas) e dos molestados (: suportando com paciência). Esses auxílios todos são de socorro humano, aos quais se agrega outro, de socorro divino (: orar a Deus pelos vivos e pelos mortos).

* * * * *

Há vícios opostos ao reto amor do próximo.

O ódio —contraposto ao ato principal da caridade. A inveja, cujo objeto é o gozo do bem alheio. Contra a paz dos corações, a discórdia; contra a paz nas palavras, a contenda (ou porfia); contra a paz nas obras, o cisma (que guerreia a unidade da Igreja), a guerra (entre as nações), a rixa (entre particulares), a sedição (entre grupos sociais).

O escândalo alveja a beneficência, o homicídio, a vida, a mutilação, a integridade corporal.

Contra a fama do ausente, desama-se com a suspeita temerária e o juízo temerário (pecados internos) e, mediante a palavra, pela detração, a murmuração e o falso testemunho.

Contra a honra do presente, falta-se ao amor pela contumélia, pela burla (ou irrisão) e pela maldição.

Contra a verdadeira amizade, peca-se por defeito (: litígio) e por excesso (: adulação).

* * * * *

Tem-se, pois, uma lista de assuntos para meditação. Uma larga lista. O futuro dirá se, mediando alguma instigação, havemos de prosseguir no tema, aqui pouco e muito dito: “nom multa sed multum”.


Escrito por V-P (nieto) às 09h33
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