VICTOR PRADERA (nieto)


CARNAVAL, HUMOR & CIA (O FIM)


Bilhete particularmente dirigido a Z-ORESTES, UBIRATAN, LUISINHO etc., os que ainda resistem..

Escrevo antes que venham as Cinzas da quarta-feira.

Da postagem abaixo reproduzo do acórdão ali referido: "...a esperança social, sobretudo aquela que se aninha nos que não têm fortuna para contratar segurança privada, tutelar portas, sacadas, janelas e balcões, e blindar automóveis velocíssimos, deve ter ao menos a ventura de amparar-se na ação serena mas firme das autoridades políticas, maxime na dos juízes, voz ainda possível daqueles que emudecem pelo terror".

Esse acórdão parece agora que caiu na esfera do "humor negro". Explico-me: ontem, decidiu-se que estupradores, latricidas & cia. de sicários símiles têm direito ao regime "prisional" aberto e benefícios quejandos.



Escrito por V-P (nieto) às 09h40
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CARNAVAL, HUMOR & CIA (5)


Recolhi de um julgado do antigo Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo a seguinte referência a VLADÍMIR MAIAKÓVSKI:

“A notícia histórica dos trabalhadores noturnos —como aos ladrões se referiu Aristófanes n’As Aves— é velha, ao que se vê, de mais de 20 séculos. Ao caráter ‘heróico’ de Orestes, sicário famoso em Atenas, Aristófanes, porém, só o referiu por ironia: ‘Se algum mortal se defrontasse à noite com o ‘herói’ de nome Orestes, era roubado e espancado’ (isso é uma fala do coro). Nossos tempos são outros, e Jean Larguier chega até a dizer: on n’ose plus appeler voleur un voleur (Criminologie et science pénitentiaire, ed. Dalloz, Paris, 8a ed., 1999, p. 27-28). O mesmo Aristófanes —agora em As Vespas— podia lastimar o rigorismo do juiz Filocléon, que confessava não saber tocar a cítara (i.e., desconhecia a arte de absolver um réu): o deus do Delfos —disse Filocléon— profetizara-lhe a morte fatal no instante em que um acusado lhe escapasse às mãos. Repito, contudo: nossos tempos são outros. Nossa tragédia está a passar comumente muitíssimo ao largo de espécie alguma de rigorismo.

Atribui-se equivocadamente a Vladímir Maiakóvski um conhecido fragmento de poema, que, em verdade, é de autoria não desse grande poeta russo, mas de um brasileiro, de um fluminense nascido em Niterói, no ano de 1936, Eduardo Alves da Costa, que cursou Direito em São Paulo —na mesma Faculdade por onde pontificou nosso decano nesta Câmara, o juiz Fernandes de Oliveira. Alves da Costa escreveu contos, romances e uma peça de teatro, As Campainhas, que, em 1978, recebeu o Prêmio Anchieta. Dele também é um livro de poesias intitulado No caminho, com Maiakóvski (1985). E como o fragmento a que me refiro se decota desse livro, julgo ser por isso que o imputem a Maiakóvski —crédito que se lançou, por lapso, até mesmo em um venerando (e brilhante) acórdão.

O fato é que esse excerto de Eduardo Alves da Costa retrata, a meu ver com agudeza, uma perspectiva da insegurança pública de nossos dias, enquanto se tolere o drama da destruição da vida pública —e lembram-me aqui, a propósito, as paradigmáticas reflexões de Richard Sennett em The Fall of the Public Man. Em contrário, porém, a esperança social, sobretudo aquela que se aninha nos que não têm fortuna para contratar segurança privada, tutelar portas, sacadas, janelas e balcões, e blindar automóveis velocíssimos, deve ter ao menos a ventura de amparar-se na ação serena mas firme das autoridades políticas, maxime na dos juízes, voz ainda possível daqueles que emudecem pelo terror:

‘Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada’.

Senhor Presidente, escrevi em alguma parte que ‘a gráfica visão de uma cidade sitiada, a clausura des honnêtes gens em casas fortemente guarnecidas por lanças pontiagudas e armados vigilantes, não faz 50 anos pareceria mais não ser que o retrato de um castelo medieval, saído talvez das páginas cavaleirescas do Tirant lo Blanc de Martorell. Ninguém de senso mediano por então imaginaria que descrição semelhante logo viria convir a estes nossos tempos. E ainda agora, só ao custo de romper conhecidos preconceitos sobre a Idade Média, é que se pode extrair do engenho contemporâneo dos vistosos ofendículos a conclusão inevitável de que nossa cidade sitiada, com nossa gente honesta sob clausura e sob medo, já não é Rodes, nem é já medieval: é a atual cidade deste século XXI’”.

Até aí o acórdão. Mas —e aqui entra o humor político (“et, peut-être, noire…”)— como se deu a morte de MAIAKÓVSKI?

Eis o que narram— com “vis comica”— os irmãos MEYER em “Le communisme et-il soluble dans l’alcool?”:

“—Como morreu Maiakóvski?
—Maiakóvski suicidou-se. Ele apreendeu mal as mudanças de 1927 e não pôde compreender-lhes a necessidade.
—E quais foram suas derradeiras palavras?
—Não atirem, camaradas” (p. 120).

E mais não se disse.


Escrito por V-P (nieto) às 09h28
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CARNAVAL, HUMOR & CIA (4)

Às vezes, em minha biblioteca, acho algum livro alheio da seção de HUMOR, mas no qual encontro alguma passagem extraviada. Assim, p.ex., a que segue, vertida ao português, recrutada em “Via col vento in Vaticano” de I MILLENARI (pseudônimo, talvez, de LUIGI MARINELLI) —ed. Kaos, Milão, 1999.

“O bispo diocesano terminou sua visita pastoral com a celebração eucarística do cânon romano em que se declarava ante DEUS, ‘Comigo, teu indigno servo…’. O pároco tomou boa nota e, a partir do dia seguinte, em todas as orações eucarísticas da Missa, exortava os fiéis a rezar ‘por nosso indigno bispo’”.


Escrito por V-P (nieto) às 19h50
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CARNAVAL, HUMOR & CIA. (3)

De DUCOURET e NÈGRE, na versão castelhana “Humor com Sotana” (ed. Grijalbo, México, 1968):

“O vigário de uma paróquia muito isolada, no norte do Canadá, fazia mais de um ano que não pudera confessar-se. O bispo, depois de passar em revista a paróquia, admoesta o sacerdote:
—Já poderia o senhor tomar o avião de vez em quando e ir confessar-se comigo. Que diabos, a época das diligências já terminou!
—É possível, Excelência —responde o pároco, mas o avião, para os pecados mortais, é demasiado perigoso… e para os veniais, demasiado caro…”


Escrito por V-P (nieto) às 19h35
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CARNAVAL, HUMOR & CIA. (2)

BERGSON, em “O Riso” (tradução brasileira, ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1980), relata uma notável entrevista de MARK TWAIN a um jornalista. Reproduzo o excerto (p. 98), com pequenas emendas:

—O senhor tem irmão?
—Sim. Nós o chamávamos Bill. Pobre Bill!
—Quer dizer que ele morreu?
—Isso é o que jamais pudemos saber. Paira um grande mistério quanto a essa questão. Éramos, o defunto e eu, gêmeos, e até os 15 anos de idade tomávamos banho na mesma tina. Um de nós se afogou, mas jamais se soube qual dos dois. Uns pensam que foi Bill, outros pensam que fui eu…
—Estranho, de fato! Mas o senhor, que pensa disso?
—Veja bem, vou revelar-lhe um segredo que até hoje não disse a vivalma. Um de nós tinha um sinal particular, uma enorme pinta atrás da mão esquerda; esse era eu. Ora, foi esse menino que se afogou.


Escrito por V-P (nieto) às 19h25
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CARNAVAL, HUMOR & CIA. (1)


Tenho em minha biblioteca uma pequena seção dedicada ao HUMOR. Ali reuni, ao largo de minha para lá de meio secular existência, alguns poucos livros de interesse, destacadamente, entre outros, dois ALFRED SAUVY (“Humour et politique” e “Aux sources de l’humour”), a tradução vernácula de “O Riso” de HENRI BERGSON, o meio puxado “humour em soutane” de DUCOURET e NÈGRE, mais o nosso VIANNA MOOG, com seus “Heróis da Decadência”, uma série de imperdíveis escritos de PÍO BAROJA, uma recente edição de MINOIS, historiando o riso e o escárnio.

Pus-me de passagem na seção e recrutei, para o próximo carnaval, um opúsculo de ANTOINE e PHILIPPE MEYER, “Le communisme est-il soluble dans l’alcool?” (ed. Seuil, Paris, 1978).

Dedicado à memória dos “lastimáveis Vladimir I. Lenin e Josef Stalin”, bem como à de seus continuadores, o livro alista várias anedotas sobre a vida e o mundo “socialista”.

Tomemos alguns de seus episódios de humor político (que verto ao vernáculo, de modo mais ou menos livre):

“Um iugoslavo visita um de seus amigos recentemente hospitalizado e diz-lhe, ao entrar no quarto em que ele se achava:
—Tenho duas notícias a dar-lhe, uma boa e outra má.
—Comece pela boa.
—Tito morreu.
—E a má?
—A notícia não foi confirmada” (p. 51).

***

“Em Moscou, a professora ensina uma lição de Geografia. Ela apanha um globo, mostra os Estados Unidos e comenta:
—Aqui estão os Estados Unidos, o país do desemprego, da violência, do racismo e das injustiças. (Depois, girando o globo, ela prossegue:) Aqui é a União Soviética, o país da felicidade, do pleno emprego, da alegria de viver, da justiça...
Então, do fundo da classe se escuta a voz da pequena Natacha:
—Professora, como se faz para visitar a União Soviética?” (p. 65)

***

“A inspeção anunciada em uma escola de Zagreb preocupa todos os espíritos. Os professores catequizam as crianças e lhes fornecem uma última revisão dos conhecimentos políticos de base. Chega, então, o inspetor que, na primeira classe que visita, esclarece que vai ele próprio interrogar os alunos tomados ao azar, e aponta um menino de terceiro ano:
—Como você se chama?
—Ivan, camarada inspetor.
—Quem é seu pai, Ivan?
—É o camarada Tito, camarada inspetor.
—E quem é sua mãe, Ivan?
—É o Partido, camarada inspetor.
—Muito bem. Quando você crescer, que deseja ser na vida?
—Órfão, camarada inspetor” (p. 43).


Escrito por V-P (nieto) às 19h15
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