VICTOR PRADERA (nieto)


Aguardo o que digam meus alunos


Empolguei-me com o projeto de uma leitura conjunta-disjunta de CÂMARA CASCUDO.

Detive-me por um par de horas em sua "História dos nossos gestos". Dali recrutei a idéia de buscar o rococó de GREUZE (ver abaixo). As mãos estendidas. Houve outras, culpadas, decerto, na primeira metade do século passado, da fácil queda da Terra de França sob o tacão dos nazistas.

Mas penso que, para as férias dos alunos (eu, eu continuo a trabalhar), melhor seria ler-lhe a recolha que faz em "Contos Tradicionais do Brasil". Porque, entre outras coisas, inventa o universal em nosso particular.

Fica a sugestão pontual. Abre-se a temporada de votação. Aguardo o veredicto dos alunos. Seu silêncio é voto nulo.

Escrito por V-P (nieto) às 19h23
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Um gesto



"La Malédiction paternelle", de JEAN-BAPTISTE GREUZE (c. de 1777).




Escrito por V-P (nieto) às 19h16
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Eu converso com meus botões

Também eu vou ao ANTONIO MACHADO (ao MAIRENA e ao ABEL MARTÍN, que são a mesma coisa) recolher e abeberar águas em fontes que juvenilizam a alma combatente do velho cruzado que sou (: "Frente al reo, los jueces con sus viejos ropones enlutados"):

“Sin el amor, las ideas
son como las mujeres feas,
o copias dificultosas
de los cuerpos de las diosas”.

***

“Poned atención:
un corazón solitario
no es un corazón”.

***

¿Tu verdad? No, la Verdad,
y ven conmigo a buscarla.
La tuya, guárdatela”.

***
“El ojo que ves no es
ojo porque tú lo veas;
es ojo porque te ve”.

***
“Los ojos por que suspiras,
sábelo bien,
los ojos en que te miras
son ojos porque te ven”.

***
“Mis ojos en el espejo
son ojos ciegos que miran
los ojos con que los veo”.

***

Alguma vez, perceberão, dirão mesmo alguns, "converso con el hombre que siempre va conmigo", e é que, tal o versejou o MACHADO, "quien habla solo espera hablar a Dios un día"...

Escrito por V-P (nieto) às 10h27
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A hipocondria de um velho amigo

Escreve-me um velho amigo, dos mais íntimos destes que me confortam a já meridiana existência, e saca de logo uns versos de ANTONIO MACHADO: “…es esta vieja angustia/ que habita mi usual hipocondría”.

Diz-me que traz por agora na face esquerda uma dessas numinosas e subitâneas máculas suscetíveis ou de ser a causa próxima letal de seus dias ou uma trivialíssima e passageira nódoa, incapaz, de todo inábil para piorar o costumeiramente desarmonioso de suas feições.

Mas, então, por que a hipocondria? Responde-me ele, ainda a referir o MACHADO: “…pobre hombre en sueños/ siempre buscando a Dios entre la niebla”.


Escrito por V-P (nieto) às 10h13
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Leitura de férias


De inteligência vívida, interrogante e meditativa, um de meus alunos, WILLIAN***, propôs a retomada do projeto da leitura de férias (leia-se seu comentário abaixo, seqüente ao texto “Por que motivo não encerro o ‘blog’ por agora”). Essa pretendida leitura “conjunta-disjunta” é uma espécie “mediatizada” possível da universidade de inverno (de inverno, “nota bene”).

Pensei na obra de CÂMARA CASCUDO, de que, abaixo do Equador, conhecemos lamentavelmente pouco. Deveria ser leitura ritual, obrigatória, de cabeceira, de todo dia.

Verei, primeiro, se é possível, com facilidade, adquirir seu “Tradição, ciência do povo”. De não o ser, parece que se reeditou o magnífico “Lendas Brasileiras”. Vejamos isso. Deixaremos em semeio a leitura, quem sabe na universidade de verão, de sua (a meu ver) obra maior: “Civilização e Cultura”.

Aguardo manifestação dos possíveis leitores.


Escrito por V-P (nieto) às 09h50
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P***K***, Parábolas e o Papagaio Rocco

O Engenheiro P***K*** observou-me, com inteira razão, que as parábolas são também um gênero paidéico legítimo, tal o demonstra o fato de que JESUS CRISTO as haja muitíssimo utilizado.

Não o contradito. Averbo, no entanto, que, com a parábola, o sentido literal não é a figura mas o conceito a que ela remete. Dessa maneira, tomo aqui um exemplo de S.TOMÁS, quando as Escrituras falam do braço de DEUS, não estão a asseverar que, realmente, DEUS tenha um braço, mas, isto sim, que tem potência para agir.

Da mesma sorte, quando o Reino dos Céus se compara, nos Evangelhos de S.MATEUS e de S.LUCAS, com o grão de mostarda que o homem semeia, não se tem literalmente o sentido de que a mostarda seja a causa da Igreja. Nem se pensará extrair de outra passagem de S.MATEUS, que DAVID COOPERFIELD usará realmente de um grão de mostarda para causar o traslado de montanhas.

O que induz a equívocos e falsidades freqüentes é o uso das alegorias como se se tratasse de realização das figuras, tomando-se essas últimas ao modo de portadoras de sentido literal.

Faz alguns anos tive acesso a um interessante livro de MICHEL DUFOUR (: “Allégories pour guérir et grandir”), que se vale de contos ao modo de metáforas terapêuticas no melhor estilo neuropsicológico.

Não recuso algum proveito pontual nesse modelo de terapia, mas, isto sim, não me resigno a que, para condenar a mentira e a fantasia de alguém, aventando DUFOUR uma alegoria sobre um papagaio mentiroso, o Rocco, deva eu acreditar, piamente, que a causa ou a condição real da cura dos fantasistas esteja no fracasso da vida desse Rocco.


Escrito por V-P (nieto) às 09h36
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Por que motivo não encerro o "blog" por agora

Adio a clausura deste “blog”. Faço-o não principalmente porque me dizem alguns que o freqüentam em (compungido?) silêncio, mas porque ontem um aluno —cujo nome não vem aos meus desgastados neurônios— contou-me estar em visita aos artigos de GUSTAVO CORÇÃO, de que teve notícia neste sítio.

Isso alegra-me e basta para minha perseverança de “blogador”.


Escrito por V-P (nieto) às 12h23
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DENISE D'AMORE, JAQUES DE CAMARGO PENTEADO e o ranheta do V-P


Estimada aluna, assídua visitante e comentarista deste “blog”, DENISE D’AMORE, em nota apartada, robusteceu o coro, inaugurado pelo expressivo solo do grande jurista JAQUES DE CAMARGO PENTEADO, ele que, nos debates seqüentes à palestra de VICENTE DE ABREU AMADEI no último sábado, elogiou exatamente aquilo que objetei na preleção do ilustre intelectual.

Já terei dito que não aposto no plenário acerto de minhas ranhetices críticas, mas não posso dizer que gosto do que não gosto.

E, de fato, não gosto, em matéria de exposições doutrinárias, do emprego de recursos figurados que, alguma vez, menos figuram do que desfiguram, especialmente quando aproximam —por arte meramente da razão e sem fundamento “in re”— fatos que, no plano real, nunca se relacionaram. Vejo nisto, em dados casos, uma espécie de mania de esquematismo e, na invocação de histórias pessoais, uma subposição do objeto à perspectiva gnosiológica: i.e., prevalece o sujeito (e sua experiência pessoal) à objetividade da coisa cognoscível, avultam (a experiência de) o conhecimento e a teoria do conhecimento à coisa conhecida ou conhecível.

De quando em quando, como instrumento pedagógico, outras, como recurso retórico, uma ou outra figura, uma ou outra analogia, acaso podem tolerar-se, especialmente para uma rápida introdução ou para um “intermezzo” da exposição. “Nec plus ultra”.

Penso que DENISE D’AMORE, JAQUES DE CAMARGO PENTEADO, VICENTE DE ABREU AMADEI e eu estaremos todos concordes em que a família é a célula mãe da Sociedade Política e, em princípio, a melhor das escolas na gestação das personalidades.

A questão não é essa. O que ponho em controvérsia é a referência concorrente ou quase nuclear das coisas —para o caso, o Bem Comum e a Legitimidade Política— a uma reminiscência familiar que nada tem, realmente, a ver com elas, posta à margem a imagética figurada de um relacionamento posterior e, como visto, sem arrimo “in re”. Não se trata, muito menos, de negar o quão digna é a piedade familiar e, para nosso caso, quanto de excelência há nas virtudes do VICENTE pai e da nobilíssima VIRGINIA, mãe de nosso palestrante.

Além disso, é preciso pôr um tanto em tribunal a onímoda alusão às tradições familiares. Tomemos um rápido exemplo, que, para mais, me é muito caro. Houvera de afincar-se o grande ALFONSO DE RATISBONA a suas pontualizadas tradições de família, decerto não poderia agraciar-se com a maravilhosa conversão que o levou à Fé cristã. Isso é fato, e fato relacionado às tradições.

Ia eu, certa vez, a caminho do Cerro Tronador, quando um guia nativo me indicou a longínqua presença de um condor que voava ao largo. Informou-me esse guia (e nunca tive a ocasião de confirmar a notícia) que o condor é ave monogâmica e que, à morte de um parceiro, sucede que o supérstite voa ao ponto mais elevado que possa e de lá se arremete à morte no solo. Pus-me por alguns minutos a meditar como parecia oportuna a figura do condor para uma espécie de mostra da ampla ordem natural monogâmica. Lembrei-me, porém, do assanhado cachorro de propriedade de um vizinho, e não só isso, mas também de que algum aluno viria logo dizer-me que, analogia por analogia, figura por figura, o suicídio do condor também se justificaria como ordenação natural da solidão vetusta.

Literatura é literatura, retórica, retórica, exposição de doutrina, exposição de doutrina, (ou, figuradamente: pão, pão, queijo, queijo), e ela, a dicção de doutrina não se confunde, senão muito rara e acidentalmente, com a exposição da história pessoal dos pesquisadores. Essa história pode ser edificante e digníssima, sadia e emocionante (como a narrou nosso palestrante), mas não é exposição de doutrina.


O referido comentário de DENISE D'AMORE (ver abaixo ao fim da postagem de "Ainda acerca da palestra de VICENTE AMADEI") ultima-se com esta frase: "A verdade de dentro para fora". Pois aí, exatamente, está a indicação conclusiva do subjetivismo e do imanentismo contra os quais me volto, aferrando-me eu ao objetivo e ao transcendente.

Nossa prezada aluna (amiga lealíssima, seja-me permitido dizê-lo)está na companhia opinativa do (vai outra apropriada figura) gigantesco JAQUES PENTEADO e de meu muito amigo VICENTE AMADEI. Se a questão for de consenso, a palestra (que já estava muito salva por sua agudíssima e bem proferida parte objetiva) vai para os céus (figurados), e, quanto ao ranheta, esse fica aqui com seus botões (...e dá-lhe outra figura!).

Escrito por V-P (nieto) às 11h44
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Ainda acerca da palestra de VICENTE AMADEI

Incidências relevantes ao largo da palestra de VICENTE DE ABREU AMADEI no Centro de Estudos de Direito Natural José Pedro Galvão de Sousa, em São Paulo, no último dia 27 de maio, foram as referências do palestrante à Verdade e à Tradição. Há de fato uma timidez freqüente nos estudos tradicionalistas sobre a relatividade das tradições, que estão jungidas a submeter-se à instância da Verdade.

Um texto recente, editado em 2001, jorrou intensa luz sobre nosso tema: FELIX ADOLFO LAMAS, “Tradición, Tradiciones y Tradicionalismos”, na obra coletiva “Tradição, Revolução e Pós-Modernidade” (ed. Millennium, Campinas), livro em homenagem a José Pedro, no décimo aniversário de sua morte.

Fora do âmbito do jusnaturalismo hispânico, GÜNTHER ELLSCHEID, num estudo de 1994 —assinalavelmente inferior à tratativa de LAMAS—, perpassou a questão na trilha (crítica) de meditações de HANS RYFFEL e de PAUL FEYERABEND, e sumariou, com acuidade, que o respeito onímodo a todas as tradições implicaria, para dizer o menos, o respeito às tradições arbitrárias e opressivas de outras tradições. Tratar-se-ia para logo de um jusnaturalismo formalista e voluntarista.

LAMAS advertira já a necessidade da abertura dos tradicionalismos aos critérios universais de verdade e retidão.

De não ser assim, talvez pudéssemos reconhecer uma espécie de “tradicionalismo positivista” (: não nos esqueçamos, a propósito, que ao arianismo teutônico do século XX não faltou uma expressa sustentação ideológica "soi-disant" jusnaturalista; falsamente jusnaturalista, é certo, mas, de toda a sorte, proclamada como jusnaturalista).

Bem por isso, ótimas razões deram espeque às observações do Dr. VICENTE AMADEI ao indicar o primado metafísico sobre as posturas práticas.

A Verdade é o critério último de todas as coisas. Último e primeiro, ômega e alfa, pois ao princípio já era a Verdade, e por Ela todas as coisas foram feitas.

Escrito por V-P (nieto) às 09h10
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Sobre a palestra de VICENTE DE ABREU AMADEI


Registro a excelência da palestra que VICENTE DE ABREU AMADEI, confortado pela presença de vários seus alunos, proferiu ontem no Centro de Estudos de Direito Natural José Pedro Galvão de Sousa, versando com autoridade sobre o Bem Comum e a Legitimidade Política.

A partir quase da metade de sua preleção, passou o eminente intelectual a tratar de doutrina e a dirigir o foco de suas lições ao objeto correspondente, referindo de modo adequado o conceito de Bem Comum e o de Legitimidade Política (a propósito da qual última, articulou distinções relevantíssimas). Sua dissertação de ontem, a contar do momento em que se objetivou (com abdicar de metáforas e metonímias, sinédoques e não sei que mais excessos de figuras), não só se tornou magistral, mas foi, a meu juízo, a melhor que já ouvi desse doutrinário. Ao dedicar-se ao tema, revelou ele estudo e meditação profunda, vindo a rematar com notável luminosidade, por todos os presentes reconhecida.

VICENTE DE ABREU AMADEI é um pensador em patente ascensão na doutrina, cuja visita periódica a textos de S.TOMÁS robustece a olhos vistos, e que precisa acomodar-se a essas fronteiras, que são mais árduas, decerto, mas objetivas e seguras. Esse anunciado acesso direto à fonte aquinense, adicionado à visita de SANTIAGO RAMIREZ, GIL ROBLES, JOSÉ PEDRO, explica a evidência de desenvoltura doutrinária do Dr. VICENTE, que merece aplausos e enche-nos de esperança.

Guardo, entretanto, reservas (como acima se avistou) quanto à exuberância figurativa (com visos homilíacos) e de recolha testimonial que se enxertam, muito freqüentemente e com resultado dispersivo, nas preleções de nosso digno Professor e Juiz. Isso fica alguma vez acomodado à literatura (porque sobre os textos pode voltar-se). Mas, de toda a sorte, ainda aí, com temperamento, e nunca a todo custo e menos ainda ao preço de concorrer com a própria dissertação de doutrina.

Escrito por V-P (nieto) às 09h46
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Sobre uma objeção de P***K***


O Engenheiro P*** K*** incidentou-me a reserva que desfiei quanto ao tema da prisão processual domiciliar (ver abaixo). Observou ele, em resumo, que a situação prisional, de que se noticiam lastimáveis assédios sexuais e até mesmo atentados concupiscentes, poderia, acaso, sugerir a clausura domiciliar.

O Engenheiro P*** K*** é um dos leitores mais assíduos deste "blog". Ornado o ilustre Engenheiro de provadas virtudes, dota-se de leituras e de profundo senso crítico. Rendo-lhe a mais sincera homenagem pessoal. Envaidece-me saber que esse Engenheiro, modelo do cavalheirismo cristão, freqüenta este pequeno "blog".

Mas, quanto à sua discreta interpelação acerca da prisão processual domiciliar, temo que suas indicações provam em demasia. Porque se a só deficiente ou perversa situação carcerária puder justificar o recolhimento domiciliar de Tício, por isso mesmo não apenas também justificaria o de Semprônia, Mélvio e Caius, mas até mesmo o fechamento dos cárceres.



Escrito por V-P (nieto) às 09h04
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