VICTOR PRADERA (nieto)


Notícias de uma cirurgia

Faz alguns dias, uma de minhas filhas surpreendeu-me em plena minha acostumada leitura das páginas do Prof. WALTER MAFFEI, “Fundamentos da Medicina”. Nada me disse a menina, mas terá, adivinho, ao travesseiro segredado a esconjura tanto de minha hipotética vocação abismal para as enfermidades, quanto de minha amizade com o reconhecidamente hipocondríaco Desembargador***, a quem a pequena atribui influência sobre minha aventada propensão às doenças. Decerto ela não leu MOLIÈRE, e o único suposto “malade imaginaire” de que tem notícia é seu pobre pai.

Mas, quanto à leitura de MAFFEI, equivoca-se a filha. Leio sobre temas de Medicina porque sou uma espécie de catador de teorias médicas. Minha atração pela Medicina não contradiz minha falta de vocação para ser médico. Há mesmo uma pequena história pessoal a esse respeito.

Eu era jovem, fui-o um dia lá longe, por mais isso custe agora imaginar. Visitava então as aulas de um curso preparatório para o vestibular de Medicina, lá no Largo paulistano da Liberdade. Passava-as, horas inacabáveis, versejando, medíocre sonetista, afeiçoado inutilmente à lírica camoniana, contando, com nada mais nada menos de dez dígitos na cabeça, os decassílabos heróicos que invariavelmente ultimava em rimas pobres. Metia-me, também, era a pior parte, a compor cantigas populares, incursionando-me em festivais, certames em que, com para lá de duvidoso mérito, andei ganhando menções honrosas e até alguns prêmios, homenagens perversas que só acrescentavam convencer-me de talento haver onde coisa alguma disso havia. Gravou-se, em antigos artefatos de vinil, um par dessas canções, e se uma outra fez-se melhor, não o foi por si própria, sim porque a salvou uma notável interpretação do LUIZ TENAGLIA, tenor brasileiro de mais e merecida nomeada na Europa, onde ainda vive, do que nesta Terra dos Papagaios.

Meu pai evitou-me um possível trauma biográfico. Afastou-me de ser médico. Não lera ele o “Tablado de Arlequín” de PÍO BAROJA mas vivera o bastante para saber que o filho, se não servia para outra coisa, havia de estudar o Direito. Foi assim que, com as mãos uma atrás, outra na frente, vi-me parar, meia-dúzia de poemas a tiracolo, na antiga Universidade Católica de São Paulo. Não desisti, por então, da frustrada mania de compor cançonetas de baixo valor artístico ou nenhum, arruinando-as indefinidamente com o uso da terminologia jurídica. Num momento intervalar de lucidez rompi as páginas do caderno que, tosca letra, resguardavam minha parvidade poética.

***

Isso tudo vem ao caso de agora. Acabo de conversar com meu amigo, o Desembargador hipocondríaco. Passou por uma cirurgia. Extirpou da face "gauche" algo que não sabe dizer, ele que não é nada de esquerda, se era mal menor ou mal mais grave (como o que é próprio da "sinistra"). Aguarda, compungido até a medula, a diagnose laboratorial. Agradece os votos favoráveis de êxito. As orações, sobretudo. Os remédios prescritos. Os médicos sugeridos. As superstições e as benzedeiras que lhe recomendaram. Ficará sem falar. Por dois dias. Cogita, será talvez um benefício auricular. Sem rir, ficará por duas semanas. Sem sorrir, que é coisa distinta, até a metade do dia 12-6-2006, dia da temível prevista sua ciência do resultado da biópsia. Se, dessa vez, informou-me, confirmarem-se suas trágicas suspeitas, sorrirá ironicamente dos céticos. Se, em contrário, estiver aparentemente são, dirá apenas, com sua reticência habitual, “quem vê cara, não vê próstata”, rancoroso com a "mala praxis" que nada inventa de seu pessoal e sofrível estado costumeiro de saúde. Nessa última (e a seu ver improvável) conjectura, prosseguirá, pobre Argan, em sua aventura de morrer a cada dia.


***

P.S.: Veio-me às orelhas um informe. Haverei de confirmá-lo. Parece que, ia em meio a longa cirurgia (que durou extensos sete minutos), quando o médico, assustado, pensou em extrair o aduncado nariz do paciente, nesse desarmonioso apêndice julgando avistar um terrível e deformante cancro. A tempo, contudo, abriu os olhos o padecente, que, com rápida e firme fungada, revelou ao cirurgião que, mal ou bem, bem ou mal, ali havia um nariz e mais nada.

Escrito por V-P (nieto) às 12h44
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A culpa é minha,/ é do Mattoso,/ é do Nelson e da Aninha


(A meu ex-aluno SILVIO BRICARELLO, uma ausência que se presenciará a cada dia).

Fez-me bem a idéia de reencontrar pausadamente a obra de CÂMARA CASCUDO e de levá-la ao convívio de alguns de meus estimados alunos. Mas as viandantes alegrias humanas têm sempre alguma viscosidade.

Ontem visitei as páginas da “História dos Nossos Gestos”. Li-as um par de tempos, até vitoriar-me o sono, afecção de que a idade me fez mais suscetível.

Hoje, amanhecendo um céu de brigadeiro, sol brilhante e límpido, anoiteci-me porém de nostalgia. O sol não me clareou a alma nevoada.

Repousara-se na memória o verbete “sentar-se” dos gestos recolhidos na História cascudiana. Durante a noite, pálpebras cerradas, os neurônios hão de se ter divertido e, por azar ou sorte (que essas coisas não existem), juntaram o escrito do CASCUDO com a Aninha e o Mattoso (com dois tês, por favor).

Ainda me lembra vê-los na primeira fila da sala de aulas. Eram os sentinelas, os balizas ou, segundo rubricas menos amigáveis, os cornetas. Cabia-lhes a tarefa espontânea de pôr-se logo de pé, garbosos, à iminente entrada de nossos Professores, a cujo ingresso na sala, todos nós, silenciosos, bem compostos, saudávamos assim, gestualmente, sinal de esquisito respeito plenário. Os balizas eram os exemplares de nossa ordem unida civil.

Recorda-me também quando o Nelson***, que era dos melhores da classe, acadêmico aplicadíssimo, tomou-nos a dianteira para pedir aclarações de doutrina ao grande Mestre que foi o nosso ARRUDA ALVIM. Não fantasiem que o Nelson tenha falado sem a compostura que o pudor e a reverência impunham. Pediu vênia. Pôs-se na vertical. Desafiou um intróito esmerado.

Molestei mais ao fundo o coração de velho. Rememorei o CALDEIRA, o grande Maestro, lá na antiga “Caetano de Campos”. Silêncio à entrada. Alunos em pé. Era a luxuosa vestimenta da homenagem. Foi o Maestro CALDEIRA quem me aconselhou, vésperas de um Dia dos Pais, devera eu dizer ao meu o quanto o filho o amava. Ensinou-me sem êxito. Homem que é homem, avisei-me por mim próprio, não fala dessas coisas. Todavia, agora pai, era o que eu sempre almejava ouvir de minhas filhas. Ao meu, a ele não lhe posso agora dizer mais. Já, de fato, lhe não posso dizer nunca mais. Nos céus, lá DEUS nos junte, só o silêncio confirmará a covardia do filho tímido, que se escudara em falsos juízos de hombridades.

Os tempos são outros. Não sou conservador, porque não quero conservar porcarias. Amo, contudo, e venero a tradição.

Meu crepúsculo de professor denuncia-me pouca e presença insípida na vida de meus alunos. Não os inculpo. São frutos de uma destruição das tradições. Minha geração escondeu-lhes os sinais da civilização cristã. A culpa é minha, é do Mattoso, é do Nelson e é da Aninha. Nós permitimos o furto de nosso patrimônio cultural, o roubo de nossa educação, a desapropriação de nosso respeito civilizado. Com nossos professores pusemo-nos a falar, primeiro ombro com ombro. Depois, professores de pé, alunos, sentados. Nominamo-os “vocês”. Sem cerimônia. Sem enxergar a evidência de nosso variado modo de ser. Estúpido, não vi a luminosidade.

Deixo-me agora levar por algum excesso na imagética. Mas não está longe da patente verdade. Ressalvam-lhe honrosos comportamentos distintos. Não são comuns, porém. Fantasio-me ingressar na sala de aula como um número na listagem dos professores: "Senhores alunos, sou o 1234, 'feijão no prato'", ou, quando muito, respondo-lhes ao genérico vocativo "Professor". Nenhum indício da velha cortesia pessoal. Não há mais, ou raras vezes o há, o nominativo que me identifica. Nenhum início, sequer pálido, esbranquiçado, do vetusto respeito, da anciã pessoalidade. Sou um número velho e maçante, unitroante, dissonante, parco responsável pela aritmética das notas (que mais se espera de um número?). Só. Já não há quem se levante. As conversas continuam. Alguns versantes sequer dirigem um esquivo olhar aos algarismos engravatados. Ninguém bate a continência do silêncio vertical. Impôs-se a desumana ditadura do igualitarismo. Falsíssima, por sinal.

E se agora não dissermos nada? E se eu me concertar, obsequioso, com essa farsa? Seremos ainda o Mattoso, o Nelson e a Aninha, eu e o Zebedeu inculpados da contínua infringência de uma velha e honrada tradição! Porque nós a sabíamos. Porque nós ainda a sabemos. Mas, assim, nós não a defendemos e pronto. O mundo baterá palmas. A tradição, nós a escondemos de nossos alunos. Não nos queremos comprometer com a verdade. Ela custaria enfrentar o "politicamente correto". Seremos então uma espécie de Pilatos. Neutros. Assépticos. Colaboracionistas do grau zero. O mundo escolherá Barrabás. Não, não quero isso. Se não disser nada, é então o quarto de hora para apetrechar minha mochila. Recolher-me aos livros, no silêncio de meu gabinete entristecido, anêmico. Vou-me embora para Pasárgada (lá não sou amigo de ninguém). Melhor: vou-me embora para Natal... lá sou amigo do CASCUDO.

***

Minhas filhas recriminam-me a habitualidade com que, sem nisto eu quase sequer reparar, abro-lhes as portas do carro, cedo-lhes a precedência na passagem, levanto-me quando, à mesa, se levantam. Têm vergonha de o pai comportar-se “às antigas”. Minha mulher já se acostumou com tudo isso. Encontra visos de cortesia amorável e, a pretexto de desculpar-me a vetustez, incentiva-me, com temperamento, a um estilo que opina romântico. Meus amigos censuram-me, porque suas mulheres cotejam modos e costumes. Nesse quadro, não querem elas igualitarismos arbitrários, mentirosos: mulheres são mulheres. Ainda julgo (velho não importa que sou) serem as mulheres os entes mais belos do universo criado. Por que se deixam levar pela idéia de serem menos belas?

Eu, eu vou cumprindo minha vida como posso. O meridiano já não é tempo para grandes mudanças. Quase me desespera ver que as coisas não se passam diversamente até na Igreja. Ontem fui à Missa. O Sacrário aberto, e os fiéis sentados comodamente, os homens —como escreveu o CASCUDO a páginas tantas de sua obra—, os homens, sentados como se fossem matronas. Será falta de Fé na presença real que a Igreja ensina ou, diversamente, a modorra ausência de meditação?

Anoiteceu-me a fatigada alma. Gosto de desfiar Ave-Marias. Rezo-as ainda em Latim. Incluo entre os frutos de rezá-las a intenção, com freqüência, da proteção de meus alunos. São mais que alunos para mim, são uma espécie de filhos.


Escrito por V-P (nieto) às 10h00
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