VICTOR PRADERA (nieto)


A PALESTRA DE CAMARGO PENTEADO

Com a presença generosa de algumas de minhas mais competentes alunas, proferiu-se hoje, em São Paulo, interessante palestra de JAQUES DE CAMARGO PENTEADO sobre "Liberdade e Autoridade -Limitações ao Poder do Estado -Princípio da Subsidiariedade", no Centro de Estudos de Direito Natural "José Pedro Galvão de Sousa".

Do muito que ali ministrou o eminente intelectual, suscitou-me ele uma pequena meditação sobre o tema do "normativismo jusnaturalista".

Espero escrevê-la, em resumo, para este "blog", amanhã de manhã, 25 de junho. Porque à tarde, se Portugal -Ah!, lembra-me com saudade: "Heróis do mar, nobre povo"...-, se Portugal me puser de Noroeste (refiro-me ao vento) e, ao revés do que espero (ainda agora de cachecol lusitano ao pescoço), não derrotar o futebol holandês, julgo que não serei capaz de redigir sequer um bilhete. Mas agora (ao menos agora) estou a dizer que de perdermos não há hipótese.





Escrito por V-P (nieto) às 22h13
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O encanto com a beleza


Incidentou-se o cerne da discussão sobre o excerto de S.AGOSTINHO, em “De Vera Religione”: “ …primeiro, perguntar-lhe-ei se acaso (as coisas) são belas porque agradam ou se, ao revés, agradam porque são belas. Ele, sem dúvida, me responderá que agradam porque são belas” (cap. 13, n. 59).

Excursionamos (parece-me que proveitosamente), mas quero agora voltar ao núcleo de nosso tema.

* * * * *

Regresso ainda uma vez à luminosa meditação de AFONSO BOTELHO, na “Teoria do Amor e da Morte”.

Regresso a essa meditação como quem torna ao começo: conservo-me na busca da origem, na persecução do princípio, ou, diz melhor BOTELHO: do começo do começo. Ou talvez por minha conta: ao começo dos começos.

Ama-se o amorável, porque —primeiro de tudo— é algo positivo, dotado de amorabilidade, quoad se (: amorável para si próprio, em si próprio). Ser amorável, objetivamente, é ser. E já basta. As coisas todas são amoráveis por esse aspecto. Porque são. Mas BOTELHO diz que, a par desse plano objetivo e só depois dele, aquilo que amamos é amorável quoad nos (i.e., amorável para nós).

Assim, quando nos encantamos com o que é belo, sentimos o amorável quoad nos, mas somos por primeiro atraídos pelo objeto, que é amorável em si, porque é belo. Ou, ao menos, porque o percepcionamos belo. Vocaciona-nos com primazia o ser. E após, a verdade.

* * * * *

AFONSO BOTELHO exubera ao parodiar a metafísica identidade do “ser enquanto ser” com a não menos metafísica relação do “ser encanto ser”.

Atrai-nos o ser. O belo toca-nos fundo a alma. O vazio, ao revés, des-encanta. A beleza comove. Convida ao regresso da contemplação do ser.

Desvela-se na beleza do universo criado uma centelha partícipe das origens: DEUS, com efeito, “reúne num só encanto todos os encantos” —disse um de nossos poetas. Não só reúne, senão que os supera infinitamente.

Mas ainda a beleza criada inspira empenhos porque encanta e sugere regressar ao começo dos princípios.


Escrito por V-P (nieto) às 19h21
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Tradição e tradição (parte 3)

1- Como dizia, o problema em pauta não é, verdadeiramente, de grafia. A palavra “tradição” —sem ser a apostólica, nem a eclesiástica—, grafaram-na, p.ex., CÂMARA CASCUDO, ora com maiúscula (“…a Tradição, ciência do povo”), ora com minúscula (“…tradições arcaicas da Terapêutica”), e ELÍAS DE TEJADA, da mesma sorte (“…es la negación de la Tradición…”; “La Tradición nace de la vida…”; “…la Tradición es obrar de los hombres…” —mas, diversamente: “…reducen la tradición al residuo…”, “…acerca del contenido de la tradición política”).

2- Ao reduzir a “verdadeira tradição” à tradição apenas apostólica (ou no limite, acaso, também à eclesiástica), nosso prezadíssimo oponente restringe o objeto da tradição aos ensinamentos orais e de ação de JESUS CRISTO.

De conseguinte, não poderia menos do que menoscabar a largueza do espectro da tradição clássica —grega e romana— e a síntese histórica que rematou, sob o impressionante fermento da Fé, na Cristandade Medieval. Tampouco poderia admitir como verdadeira a tradição da Hispanidade, quando menos na amplitude de seu campo (cultural, social, político, jurídico), por limitar-se nosso confrontante ao recrutamento de sua referência religiosa.

Ser-lhe-iam, no fim e ao cabo, indiferentes a cultura, a política, o direito e a economia da “Universitas Christianorum”, tudo porque a única tradição que tem por verdadeira se esgota nos ensinamentos externados pelo CRISTO-HOMEM e recolhidos pelos apóstolos. Nec plus ultra.

O resto… o resto é resto. DEUS recolhe-se ao Tabernáculo. Ponto e basta. Nada tem a ver Ele com a política. Terá errado nosso S.PIO X ao pretender reinstaurar a Cidade Católica?

3- Voltamos a um tema recorrente: a “devotio moderna”. Fosse eu impiedoso, recomendaria a leitura de MAX WEBER (“A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”). Seria uma espécie de déjà vu…


Escrito por V-P (nieto) às 15h49
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Tradição e tradição (sqq.)


1- Certa vez escrevi neste “blog” —e isto o reafirmo hoje—que abdicaria (em princípio) de polemizar se, “quodammodo”, com o debate corresse o perigo de malferir a caridade e o respeito devido ao dialogante.

Não vislumbro (muito ao revés, aliás) que, no presente confronto de juízos, me veja na imprudente ocasião de afrontar um estimado amigo. A esse amigo, respeito-o muitíssimo. Ostenta reconhecida nobreza de conduta. Homem de predicados invejáveis.

2- Todavia, afirmou-me esse amigo, em mensagem intitulada de “Semântica”, que deve distinguir-se “tradição” (com letra minúscula) de “Tradição” (Verdades transmitidas por Jesus —pela palavra e pelo exemplo —aos Apóstolos, não registradas nas Sagradas Escrituras).

Essa distinção —enquanto nosso interlocutor a propõe no plano semântico (note-se bem, pois, afirmo isto in quantum, quatenus, no âmbito sinalizante, sem estender-me a uma divisão real das tradições)—, essa distinção é desamparada do costume vernacular e até dos documentos eclesiais, que não oferecem registro consistente em favor da uma ou de outra grafia. Trata-se, de toda a sorte, de uma distinção terminológica de escola (como, p.ex., pode ver-se em CHARLES JOURNET, em “L’Eglise du Verbe Incarné”, Paris, 1951, vol. II, p. 637-8), e, esclareceu-me o amigo, presente no Catecismo de JOÃO PAULO II.

Tomo a vulto alguns exemplos:

a) No Decreto “de sacris imaginibus et traditione”, do II Concílio de Nicéia, consta uma referência à “traditio sanctae catholicae Ecclesiae”, em que a palavra “traditio” se grafou com minúscula.

b) Do mesmo Concílio, em “De imaginibus, humanitate Christi, traditione”, lê-se “tradição eclesiástica” em minúscula: omnem ecclesiasticam traditionem.

c) No IV Concílio de Constantinopla, cita-se parte de texto de S.PAULO aos Tessalonicenses (II,2-14) com a palavra “traditiones” escrita em minúscula. A Vulgata não mencionava esse termo diversamente, i.e., com minúscula: “tenet traditiones”.

d) Na “Professio fidei Tridentina”, fala-se nas “Apostolicas et ecclesiasticas traditiones…”, assim, com minúscula.

e) No Concílio Vaticano (nota bene: o primeiro, o primeiro!), no capítulo “De revelatione”, escreve-se “sine scripto traditionibus” (com minúscula…).

f) S.PIO X, na “Pascendi”, referiu-se à tradição que a Igreja afirmou: “traditionem etiam transfertur, quam Ecclesia…” (uso de minúscula…).

g) PIO XII na “Humani generis”, por igual: “…in divina ‘traditione’, sine explicite, sive implicite inveniantur”.

(Até aqui valho-me do texto de DENZINGER, “Enchiridion Symbolorum”, Friburgo, ed. Herder, 1955).

h) O cânon 750 do atual Código de Direito Canônico veicula, em latim, a palavra “tradito”, que, do original minúsculo, ensejou em vernáculo “transmitida por Tradição” (aí, sim, vertida com maiúscula). Diversamente, no cânon 760, o original e a versão vernacular usam a inicial maiúscula em “Traditione” e “na Tradição”.

i) Exemplos ainda da indiferença no uso de maiúscula ou minúscula para a grafia da “tradição apostólica” (e da eclesiástica) encontro no fato de que FÉLIX LAMAS —em imperdível estudo sobre o conceito e a divisão de “tradição”— escreve-a com minúscula, ao passo que o “Comentario Exegético al Código de Derecho Canónico”, editado pela EUNSA, menciona-a com maiúscula. A versão espanhola da “Teologia Dogmática”, de SCHMAUUS, também se vale da minúscula inicial. Mas o “Curso de Teologia Dogmática”, de PABLO ARCE e de RICARDO SADA, publicado pela EUNSA, também grava Tradição (assim, com maiúscula). E com eles, o nosso JOSÉ PEDRO em “Para Conhecer as Verdades da Fé”. Mas, com minúscula, VILARÑO UGARTE, nos “Puntos de Catecismo”; e também BOULENGER. Não, contudo, DEHARBE, que a escreveu com maiúscula em seu “Catecismo”; e, de seu lado, TANQUEREY. Etc. Etc.

Prossigo na próxima postagem. Logo se avista que o problema não é terminológico.


Escrito por V-P (nieto) às 15h04
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Tradição e tradição

1- À vista de reiteradas críticas à minha postagem “Apenas porque pulchrum sunt” (cfr. abaixo), respondo aqui, por primeiro e brevemente, a uma das proposições que me forem opostas, qual seja: As “verdadeiras tradições” são as “verdades transmitidas por Jesus aos Apóstolos, não registradas nas Sagradas Escrituras”.

2- Vê-se que o oponente reduz a tradição verdadeira às tradições apostólicas.

Curioso que sequer, ao menos expressamente, admita, entre as verdadeiras, as tradições eclesiásticas.

3- Essa redução desvela uma atitude antimetafísica manifesta, limitando ao plano da Revelação a tradição que constituiu a Cristandade. Rompe com a tradição escolástica (que, aos olhos do contricante, não será verdadeira...) de sintetizar a sabedoria e a ciência, a Fé e a razão humana. Em breve, pensar-se-á num fideísmo.

4- Conduz ainda esse critério redutivo a negar o papel do Logos como Verdade de todas as coisas, de toda a Universitas Christianorum. O Verbo já não se instaura in omnia, senão que apenas no plano do que o Cristo-Homem disse, postou-se e gesticulou. É um Verbo antimetafísico: não se concluirá mais que “omnia per ipsum facta sunt”.

5- Significativa, ainda, é a circunstância de que, ao fundo, essa demarcação da “verdadeira traditio” aos limites dos ensinamentos orais e gestuais de Cristo empolga o falsíssimo juízo —tão gráfico na “devotio moderna”— de que em política (i.e., fora dos lindes da doutrina revelada) não há dogmas (“rectius”: não há verdades…).






Escrito por V-P (nieto) às 12h23
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Ah! Os intérpretes e suas leituras...

1. Recebi de um bom amigo, entre outras alusões sobre o texto abaixo “Apenas porque pulchrum sunt”, a seguinte observação —“O texto dá a entender (embora não tenha sido sua intenção), que a ‘voz popular’ converte-se em ‘Tradição’ (com ‘T’ maíusculo)”—, observação essa acrescida de nada sutil anatematização.

2. O que eu escrevi, muito diversamente, foi, primeiro: “A voz popular —contanto que antiga e perseverante— é a voz da tradição”. E, em seguida: “…a voz da verdadeira tradição não pode menos ser do que a voz de DEUS, porque in principio erat Verbum, e o Verbo Se fez Tradição”.

3. Não disse que a voz popular se “converte” em “Tradição”. Sequer disse, eis o ponto, que a voz popular é a voz da tradição. Essa resultaria uma proposição categórica simpliciter, ao passo que meu juízo foi reduplicativo (: a voz popular, in quantum voz antiga e perseverante), vale por dizer, uma proposição virtualmente hipotética.

4. Em acréscimo, se o Verbo erat in principium (e, em meu texto, é ao Verbo que se vinculou a palavra Tradição com maiúscula), não vejo como disso extrair, sequer no limite, o entendimento de que, para mim, a voz popular se teria convertido em Tradição.

5. Penso que o senso comum, verbo popular antigo e perseverante, voz universal, é o legado da Tradição verdadeira, Veículo do Verbo, que in principium erat.

Já a voz do povo simpliciter, se não se toma em seu gênero, é só mera opinião. A doxa não é universal, não é própria da traditio verdadeira. O que, diversamente, se ensina ao largo do tempo, com uniformidade, é doutrina quam semper et ubique tenuit.

É S.TOMÁS quem o diz: “…o juízo que por todos é feito a respeito da verdade não pode incidir em erro” (“Suma Contra os Gentios”, Livro 2, cap. 34).

E BOULENGER alista o consenso universal como demonstração válida da existência de DEUS (cito na tradução portuguesa, “Manual de Apologética”, 1960, 4ª ed., p. 60 et sqq.).

Voltarei à questão. Mas deixo dito, por agora, que tanto me aparto das demofilias (em que a doxa é a voz de DEUS), quanto de um certo gênero de positivistas que só reconhecem por voz de DEUS a textualística sagrada. Há algo mais no Universo criado do que as Santíssimas Escrituras. E há mesmo verdades, especulativas e práticas, escritas na nossa razão humana (ou, para ser mais retoricamente significativo, in cordibus nostris). Falam-na os homens de todo tempo e lugar. Essa é sua voz universal. Esse, o patrimônio da verdadeira Tradição, em que, ao princípio, erat Verbum.


Escrito por V-P (nieto) às 14h25
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Apenas porque pulchrum sunt


Volto ao tema dos feminilíssimos "cabelos longos", em muito motivado pelo fato (altamente honroso) de que me escreveu a titular do imperdível "blog da Santa" (http://www.blogdasanta.blogspot.com/), sítio que merece periódica visita.

Há alguns dias, escrevi de fato neste desmerecido nosso “blog” : “cabelos largos não são próprios dos homens e, antes, são glória feminil, um seu troféu estético”.

Alguém me poderia objetar que se tratava aí de mero gosto pessoal, por mais eu, receando um anacronismo, haja reportado minha preferência estética a uma passagem apostólica.

Mas, como venho de insistir, delectare quia pulchra sunt.

Pois tomem em linha de conta uma constante admirável, que colho em CÂMARA CASCUDO: nos contos populares as donzelas têm, com impressiva freqüência, cabelos longos e soltos, signo de sua liberdade e beleza encantadora.

Por isso mesmo, o símbolo não se preserva na situação das mulheres comprometidas: nelas, os cabelos levam-se presos, entoucados ou enredados. Não são já livres para encantar. Sua beleza esconde-se, obscurece-se, reserva-se para o compromisso.

A voz popular —contanto que antiga e perseverante— é a voz da tradição. E a voz da verdadeira tradição não pode menos ser do que a voz de DEUS, porque in principio erat Verbum, e o Verbo Se fez Tradição.


Escrito por V-P (nieto) às 09h22
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Agradam, sim, quia pulchrum sunt

Ainda a propósito da questão posta ultimamente em debate neste "blog", decoto parte de um voto proferido no antigo Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo sobre caso de importunação ofensiva ao pudor:

"A ética socrática firmava–se no designado intelectualismo do valor, segundo o qual o bem é a ciência, o ciente é bom, mas a realidade das coisas dá razão aos que encontram, na própria natureza humana, uma disposição desordenada das potências. Não faltou até dissesse um pregador sábio que o sensual vê em galhos secos luxuriar verduras" (ACrim 1.001.531).

Interessa aí, sobretudo, à presente discussão o trecho final do que acima se reproduziu: "Não faltou até dissesse um pregador sábio que o sensual vê em galhos secos luxuriar verduras". O sermonário é o Padre MANUEL BERNARDES. Na "Nova Floresta".

Escrito por V-P (nieto) às 08h59
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Palestra no sábado

Não nos esqueçamos. Sábado, dia 24 de junho, o brilhante jurista JAQUES DE CAMARGO PENTEADO ministrará conferência no Centro de Estudos de Direito Natural "José Pedro Galvão de Sousa".

Vale sempre a pena ouvi-lo. Além de pensador fecundo, é também um grande orador.

Escrito por V-P (nieto) às 19h17
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Agradam... quia pulchra sunt

Era eu menino quando pela primeira vez ouvi um famoso conto, conhecidíssimo na literatura oral de todo o mundo: “A Moura Torta”. Depois terei reencontrado a narrativa textualizada —nos GRIMM e, mais adiante, no nosso CÂMARA CASCUDO.

Em resumo, lembra-me aqui (se é que bem me lembro) uma de suas variantes: ao tempo da escravaria, uma espécie de feiticeira, caolha, era chamada de Moura Torta. Certo dia, abaixando-se às margens de um rio para encher um pote, avistou nas águas a imagem de uma graciosa princesa. A Moura opinou, surpreendida, que fosse seu o rosto especulado, e pôs-se a cantarolar:

“Minha vida vai ser boa,
Minha vida vai mudar,
Não vou mais carregar
Água p’r’o açude da patroa”.

* * * * *

Pois traduzo mais um pouco JEAN OUSSET:

“O fato de ser incapaz (por cegueira, surdez, ignorância, falta de espírito ou de hábito, de cultura ou de fé)… o fato de ser incapaz de perceber convenientemente a plenitude de um objeto não pode, sem abuso, servir de argumento contra a objetividade de uma realidade qualquer.

De não ser assim, dir-se-á que uma demonstração matemática deixa de ser verdadeira se o ignorante que a escuta for incapaz de seguir-lhe o encadeamento.

Nós nos obstinamos aqui contra uma forma de racionalismo. Modo de pensar segundo o qual o real é sistematicamente reduzido àquilo que é percepcionado. (…)

Como se a rotação da terra não tivesse começado senão quando a descobriu Galileu!” (“A la découverte du beau”, p. 60-1).

* * * * *

Vejamos agora, mais completa, a passagem de S.AGOSTINHO, no “De Vera Religione”:

“ …primeiro, perguntar-lhe-ei se acaso (as coisas) são belas porque agradam ou se, ao revés, agradam porque são belas. Ele, sem dúvida, me responderá que agradam porque são belas” (cap. 13, n. 59).

Sine dubitatione: ideo delectare quia pulchra sunt.

Agradava por ser objetivamente bela: a princesa, não a Moura Torta, que de si própria, enganada pela vista, opinava ser bela.


Escrito por V-P (nieto) às 19h15
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Agrada porque é bela...

Traduzo um pequeno excerto de JEAN OUSSET:

"O fato de que um cego não possa contemplar a frisa das panatenéias jamais conferiu um argumento sólido para declarar 'subjetiva' a bondade daquelas" ("A la découverte du beau", p. 60).

Voltarei ao tema.

Escrito por V-P (nieto) às 17h01
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Bela porque agrada, ou agrada porque é bela?

1- À afirmação da maior excelência da vista, relativamente aos demais sentidos exteriores, segue o conseqüente juízo da maior nobreza relativa de seu sensível próprio.

2- Sensível próprio é aquilo que cada sentido externo percebe como próprio (e não de modo comum aos demais).

3- Próprio da vista é o visível (“illud sensibile cuius proprie perceptivus est visus, hoc est visibile” —S.TOMÁS, “De Anima”, II, lição 14, n. 399).

4- Visível por si —visibile per se— é a cor.

5- A arte que tem propriamente a cor por meio de representação é a pintura. A arquitetura e as artes plásticas têm por meio representativo os materiais sólidos. A dança e a mímica, o movimento. A literatura, a palavra. A música, os sons.

6- Em todas essas artes, está-se em face do “pulchrum” ou “belo sensível”, que, numa simplificação que faz honra à dignidade do sentido da vista mas fragiliza a aproximação com as demais acepções do “belo”, os escolásticos figuravam “quod visum placet” (: o que agrada ver).

7- É que o “pulchrum” —em qualquer de suas esferas (além do estético ou sensível, há um belo técnico, um belo moral, um belo intelectual, um belo divino)— é a plenitude do ser. Houve quem o dissesse com propriedade: “uma coisa, de não importa qual natureza, não saberia ser bela e perfeita se ela não é verdadeiramente tudo o que deve ser e se ela não tiver tudo o que deve ter”.

8- O “pulchrum”, pois, é a perfeição dos seres. E a perfeição é a conformidade com o fim. Logo, assim o ensinou um pensador francês, belo é todo objeto concertado com seu fim.

9- Guardemo-nos, todavia, de julgar que o agradável de ver (ou de ouvir) seja o mesmo que o “pulchrum”. Na verdade, a “joliesse”, como se disse numa imperdível obra de JEAN OUSSET (“A la découverte du beau”; Paris, 1971, p. 50), é um elemento suplementar da plenitude.

10- O “quod visum placet” dos escolásticos só tem sentido próprio (o que é patente) quando se refere ao prazer sensível enquanto fim (p.ex., o dos objetos que têm por finalidade ser agradáveis de ver). Porque a “joliesse” é definidamente o caráter da “alegria do espírito” (“la joie de l’esprit”, em palavras de HENRI CHARLIER).

11- Por isso, cabe agora recorrer a uma antiga interpelação: “as coisas são belas porque agradam, ou agradam porque são belas?” (“…pulchra sint, quia delectant, an ideo delectent, quia pulchra sunt?” —S.AGOSTINHO, “De Vera Religione”, cap. 32, n. 59).


Escrito por V-P (nieto) às 10h15
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Ainda os sentidos externos

1- A distinção dos sentidos exteriores do homem resulta da razão mesma da existência desses sentidos, que é a de servir ao intelecto (: “sensus est propter intellectum…”, diz S.TOMÁS, “S.Th.”, I, q. 77, art. 7º, respondeo).

2- Essa distinção retraça-se pelo que é próprio e essencial aos sentidos, que, sendo, por sua natureza, potências passivas, são receptoras de espécies impressas. Da diversidade dos objetos sensíveis exteriores resulta a multiplicidade dos sentidos externos (para tudo isso, S.TOMÁS, “S.Th.”, I, q. 78, sobretudo art. 3º, respondeo).

3- Há casos em que os sentidos exteriores captam os mesmos sensíveis (que, por isso mesmo, se denominam “comuns”: “sensibilium communium). Não são sensíveis próprios a nenhum sentido particular, senão que sensíveis comuns a todos os sentidos. São eles, segundo já ensinava ARISTÓTELES: o movimento, a quietude, o número, a figura e a magnitude. S.TOMÁS recolheu essa lição e abonou-a no “De Anima” (II, lição 13, n. 386).

4- Quando o Engenheiro P***K*** me sugeriu que, em vez de, mediante um cd, apenas ouvisse determinada peça musical, tratasse melhor de ouvi-la e VÊ-LA por meio de um dvd, adverti logo que não era irrefragável sua afirmação em favor da primazia estética da Música.

5- Virtuosíssima qualidade moral de nosso amigo P***K***, a da franca honestidade do intelecto, ultimou sua adesão à superioridade da vista.

6- Trata-se, porém, de uma hegemonia relativa, pela causa formal, que engendra uma superioridade horizontal e não, propriamente, hierárquica (cfr., a propósito, o que escreveu AGUSTÍN RIERA, em “La Articulación del Conocimiento Sensible”, publicada pela EUNSA em 1970; p. 104-5).

Volto ao tema ainda hoje, se DEUS permitir.


Escrito por V-P (nieto) às 09h24
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O que lecionava SINIBALDI

Com sua valiosa obra, na virada do século XIX para o XX, "Elementos de Philosophia", THIAGO SINIBALDI formou, "in illo tempore", várias gerações. É o livro que tenho sempre e por primeiro às mãos para espancar minha conhecida insuficiência cultural.

Reproduzo o que, a propósito do cotejo entre os sentidos externos (quanto à própria dignidade), ensinava o grande pensador:

"Enquanto à excelência, um sentido é mais nobre do que outro, quando o objeto daquele é mais extenso que o deste. Por isso, o mais nobre entre todos os sentidos é a vista, pela qual direta e imediatamente percebemos as cores, e indireta e mediatamente atingimos a figura, a grandeza, o movimento, a quietação, etc. Menos nobre do que a vista é o ouvido, que se limita à percepção dos sons. Em seguida vem o olfato, e finalmente o gosto e o tato" (ed. França Amado, Coimbra, 1906, vol. 2, p. 93, item n. 78 da Antropologia).

Quanto à certeza, também a vista é superior ao ouvido, disse SINIBALDI, mas é aquela inferior ao tato, pois a vista "está às vezes sujeita a ilusões".

Quanto à vantagem, distinguiu o autor: a)no que concerne à vida intelectual, a vista e o ouvido são superiores aos demais sentidos; b) no que toca com a vida orgânica, o tato e o gosto são superiores aos outros.

Escrito por V-P (nieto) às 12h37
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PK, DENISE e o Professor VANHOUTTE


Em tempos para a reflexão pausada pouco propícios como os atuais (no fim e ao cabo, somente a cada quatro anos, é possível reunir um grupo de ultra-milionários pátrios, pô-los debaixo de poderosas publicidades e sob a direção de um aparente poliglota que, segundo consta, chegou mesmo a ler e traduzir “Soccer Tactics and Teamwork”, de CHARLES HUGHS), em tempos, como eu dizia, tão impropícios para desenvolver a lucidez e articulá-la, os processos judiciários que me sitiam o gabinete aconselham-me a não repartir demasiado os minutos e a não desfrutar mais largamente a interessante discussão sobre o primado entre os sentidos externos (ver postagem anterior).

* * * * *

Três incursões, desde ontem. Em separado, o nobre Engenheiro P***K*** pôs-se já a meditar, asseverando-me de saída: “Nunca passou pela minha cabeça um suposto primado do sentido da audição!”. Minha estimada amiga DENISE D’AMORE, reportando-se aos desígnios da Providência e à conhecida capacidade humana de superar os perdimentos, parece que ultrapassa a questão em pauta, acaso por não lhe ver relevo factual ou, até mesmo, por entender que os sentidos externos do homem sejam todos de mesmo grau de dignidade.

Por ultimo, ainda em apartado, meu amigo o Professor MARCEL VANHOUTTE —de quem não tinha notícia direta faz alguns anos— não sei como veio a saber da existência deste “blog”, e, aposentado há uma década (ele, não o “blog”), resolveu enveredar por uma nova pista: inócua, sustenta, seria ao fim a discussão sobre a maior ou menor dignidade da audição e da visão, quando, a seu juízo, não seriam apenas cinco os sentidos exteriores humanos, senão que bem mais, entre eles prevalecente, em nobreza, o sentido do estático, cujo órgão é o aparato vestibular das orelhas. E orelhas de um lado, orelhas de outro, recomenda-me desasnar-me com uma certa perpeção vestibular do ócio ("rectius": estaticamente, em repouso).

* * * * *
Não me lanço a desengrumar a observação do Professor VANHOUTTE, porque a suponho apenas irônica. Referência faceciosa a seu estado de aposentadoria. “Nec plus ultra”. Mas o tipo vive às margens do Garonne. É outra coisa descansar ali.

* * * * *
Quanto ao mais, limito-me, por agora, a uma citação de S.TOMÁS: “Visus autem, quia est absque immutatione naturali et organi et obiecti, est maxime spiritualis, et perfectior inter omnes sensus, et communior” (: “A vista, pois, porque está isenta de mudança física, tanto por parte do órgão, quanto por parte do objeto, é o mais espiritual e perfeito de todos os sentidos e o mais universal” —entendida a ausência de mutação física, no estrito campo do processo de percepção). Veja-se a “Suma Teológica”, I, q. 78, art. 3º, “respondeo”.

* * * * *

Vamos ao jogo que está prestes a começar.


Escrito por V-P (nieto) às 09h57
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Olhos ou orelhas?


Meu bom amigo Engenheiro P***K***, cujas opiniões ouço sempre com merecida atenção, afirmou em correspondência apartada: "A Música é a mais elevada das Artes".

Esse juízo levou-me a meditar sobre a primazia de dignidade entre as sensações particulares, assinaladamente entre as auditivas e as visuais. Ou, em outros termos, qual de nossos sentidos exteriores é mais nobre: a audição ou a visão?

* * * * *

A questão fica assim proposta, exatamente ao tempo em que o futebol nos chama intensamente a atenção das orelhas e dos olhos.

Voltar-se-á ao assunto, DEUS mediante.

Escrito por V-P (nieto) às 12h07
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