VICTOR PRADERA (nieto)


LABILIDADE (epílogo)

Para encerrar os temas de minha rubrica “LABILIDADE”, penso ter reservado o melhor aroma.

Se comecei com as linhas bocageanas “os lábios mentem; os olhos, não”, referindo a seguir o “coração murmura e a voz não diz” do nosso GUILHERME DE ALMEIDA, fui ao “longe dos olhos, longe do coração”, que terminei por emendar: “longe dos olhos (não por demasiado tempo), mais perto do coração”.

***

Faltava dizer o melhor, que é a vitória do amor sobre o mundo que se vê: “os lábios mentem; os olhos vêem; o coração murmura, sente, compromissa-se”.

Não me resigno com a tentativa “revolucionária” anti-SAINT-EXUPÉRY. Suspeito que se trata de mais uma das afecções do burguesismo, sobretudo o das esquerdas, fruto precipitado de quem não leu “Cidadela”, não leu “Terra dos Homens”, não leu “O Vôo Noturno”, e, se leu, não compreendeu “O Pequeno Príncipe”.

Uma estimada amiga, há alguns anos, ressonando a ligeireza das bobagens que se repetem tomando ares, ria porque ria do “Petit Prince”, "livro (dizia-me algo assim) para dez entre dez candidatas a Miss Universo…". Sugeri-lhe, em troca, a imperdível leitura de BERNARDINO MONTEJANO, “Aproximación al Principito” (Buenos Aires, EDUCA, 1999). Nunca soube que o tenha lido: era-lhe mais cômodo fazer rir os auditórios com críticas ligeiras e frases estereotípicas.

Prefiro aqui ficar com o melhor: “Je te regarderai du coin de l’oeil et tu ne diras rien. Le langage est source de malentendus”. (Com a tradução de Dom MARCOS BARBOSA: “Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos”). Essa tradução de Dom MARCOS é magnífica; lembra-me a forte impressão que me causou a passagem “Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam” (isso está melhor do que o original: “Je crois qu’il profita, pour son évasion, d’une migration d’oiseaux sauvages”).

E adiante: “…on ne voit bien qu’avec le coeur. L’essentiel est invisible pour les yeux” (: “…só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”; ou numa interessante versão latina: “…animo tantum bene cernimus. Quae plurimi sunt, oculis cerni non possunt”).

Não é pelos olhos, mas pelo coração, que a rosa do Petit Prince será “unique au monde” —“singularem esse”.

Foram os olhos que viram, vencedores, a morte do Crucificado? Ou, após e a despeito do que se viu, foi o Amor, foi o Coração Sacro e Ressuscitado que, Amor Infinito, Se vitoriou para todos os tempos? Vitória, Tu reinarás!

Escrito por V-P (nieto) às 12h31
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LABILIDADE-3 (longe dos olhos, longe do coração)

Continuo à volta do mesmo tema.

Numa das postagens anteriores (“LABILIDADE-1”), mencionei (e qualifiquei por) um aforismo “os lábios mentem; os olhos, não…”, que são versos de BOCAGE (1765-1805):

“Eu antes quero
Muda expressão;
Os lábios mentem,
Os olhos não” .

É possível que, com essa enunciação, não seja externamente um “dito popular”. À frase não se refere o nosso CÂMARA CASCUDO, nas “Locuções Tradicionais do Brasil”. Mas no “Dicionário do Folclore Brasileiro”, CASCUDO alista expressões relativas à “linguagem dos olhos”, entre elas esta: “Pelos olhos se conhece quem tem lombriga”, que é uma espécie de popularização jocosa daquela formulação mais romântica da ode bocageana.

***

Outra sentença popular —esta mais conhecida—, referível a “olhos”, é a conhecidamente pessimista “longe dos olhos, longe do coração” (ou, num mais comum enunciado lusitano, “longe da vista, longe do coração”).

Os franceses registram por igual: “loin des yeux, loin du coeur” (: “on ne pense guère à ceux qu’on ne voit plus”).

ALLAIN REY e SOPHIE CHANTREAU entendem que a locução exprime o paralelismo entre as reações fisiológicas (: a percepção) e as afetivas, por meio de uma figura de metáfora espacial. Vislumbram aí uma causalidade mecânica (: do tipo “tal pai, tal filho”).

Recruto LEONARDO CASTELLANI para adversar a trivialidade mecanicista. CASTELLANI ensinou que a interrupção transitória dos hábitos, incrementa-os. Aproveito-me da lição: "longe dos olhos (não por demasiado tempo), mais perto do coração".

Escrito por V-P (nieto) às 11h49
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LABILIDADE-2

Continuo a postagem anterior: estiraçado em meio aos meus livros, folheio o “Messidor”, à cata dos versos que, lá no fim da década de 60, sublinhei, amargo até não sei onde, como se foram um linimento de minha alma.

Não os recolherei aqui todos. Limito-me a uns que marquei com um selo mais forte, mais grifado, mais sulcado, talvez porque, à altura, me dissessem o que eu devia ouvir:

“Ah! Quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente,
que o coração murmura e a voz não diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!”


Escrito por V-P (nieto) às 11h20
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LABILIDADE-1


(Ou: “De como tropecei no Messidor”).

1- Terão boas razões para torcer o nariz todos os que esperavam hoje fosse eu escrever aqui sobre o conceito de “labilidade”. Afirmei em separado que o faria. Cheguei a reunir, numa só estante da minha biblioteca, PINATEL, DE GREEFF, CUSSON e a LYGYA NÉGRIER-DORMONT.

2- Hoje acordei com a disposição adequada para redigir umas tantas linhas sobre o tema. Fui à biblioteca e… pimba! Topei no “Messidor”! Agora, estatelado, dissipado, sob os versos do maior dos poetas paulistas, hoje não escreverei acerca da labilidade. Ou, quando menos, dela só darei uma referência casual com a notícia de meu tropicão no “Messidor”.

3- Mas por que tropecei nas poesias de GUILHERME DE ALMEIDA? Essa é outra história. Se quiserem, um de meus traumas biográficos.

4- Eu tinha 15 anos e cursava o 1º Científico num colégio do Estado. Na mesma sala de aulas, estava ali a ***, cerca de dois anos mais velha do que eu e com um namorado, universitário, cinco anos terrivelmente mais antigo do que eu, dono de um carro muito mais veloz do que eu com minhas pernas desajeitadas. Mas eu, eu, por que eu tinha de afeiçoar-me, coração de tímido, a essa namorada do universitário?!

Tratava-a com a distância que me ditavam o respeito merecido e minha costumeira timidez. Nunca lhe disse denunciadora menor palavra, pequenina que fosse, sílaba, iota algum, daquela estima caladíssima e reverente. Choveram muitas chuvas, de gestos diários, assépticos, insuspeitos, distantes, até que um dia, devolveu-me ela um livro que, fazia pouco tempo, eu lhe emprestara. Cardiopatia ingênua, pus-me, para nutrir a desesperança, a folhetear as páginas do livro que essa moça percorrera, e entre elas encontro um bilhetinho, na letra dela, redonda, pedagógica, a letra mais por mim no mundo então conhecida, com um só aforismo: “os lábios mentem; os olhos, não…”.

5- Contorceu-me o pobre miocárdio. Fora eu descoberto sem dizer um som. Três amigos, com quem resolvi confidenciar as dores, aconselharam-me uma conversa franca: ela que abdicasse do universitário! ela que ficasse com meus olhos acusadores! Essa foi a conversa que minha timidez nunca me permitiria, mas que eu não entretive menos por tímido do que por amor à honestidade, à honradez e ao próprio amor. É isso: o amor ao amor exige integridade.

Fui ao “Nós”, fui à “Dança das Horas”, fui à “Suave Colheita” —tudo isso, depois, reunido no “Messidor”—, e lá estava o GUILHERME DE ALMEIDA, o antigo soldado de 32. Vi “o céu chorar a chuva” e desfiei, palavra por palavra:

“Espero-te, pensando: ‘Ela não tarda…
Prometeu-me: há de vir… E com que aflitas,
longas horas de angústia tu me agitas
o coração que, tímido, te aguarda!”.

6- A moça —suspeito— há de agora ser avó. Beirará os 60. Faz quase três décadas que não a vejo. Não me arrependo da conversa que não tive. Julgo ter observado um dever. Mas a lembrança das dores que então amenizei com os versos balsâmeos de GUILHERME DE ALMEIDA, essa recordação é minha história pessoal. Já não posso arrancar os cabelos que não tenho, mas ainda posso juvenilizar a alma com os antigos preceitos de os homens reverenciarem, até a abnegar o próprio coração, a estatura de dignidade e beleza inteira da mulher amada.

Adiante postarei alguns dos versos que li naquele tempo.


Escrito por V-P (nieto) às 11h02
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